A aviação russa realizou nesta quarta-feira seus primeiros ataques na Síria, a pedido do presidente Bashar al Assad, contra alvos do grupo jihadista Estado Islâmico, uma operação questionada por França, Estados Unidos e a oposição síria.

“Os aviões russos atingiram com precisão alvos em terra dos terroristas do grupo Estado Islâmico na Síria”, declarou o general Igor Konashenkov, porta-voz do ministério da Defesa.

De acordo com a fonte, foram realizados vinte ataques aéreos, que atingiram oito alvos do grupo jihadista, destruindo principalmente um posto de comando do EI.

Segundo ele, os ataques destruíram equipamentos militares, depósitos de armas e munições e ferramentas de comunicação do grupo jihadista, que no ano passado proclamou um califado nos territórios sob seu controle no Iraque e na Síria.

Ao longo do dia, o líder da oposição síria no exílio, Khaled Joja, disse à AFP em Nova York que nos ataques russos a Homs (centro da Síria) morreram 36 pessoas, “inocentes que combatiam o extremismo”.

“Os russos elegeram estas regiões porque foi ali que o regime de Bashar (Al Assad) sofreu derrotas”, explicou à AFP o cientista político libanês Zyad Majed.

Mais cedo, o chanceler francês, Laurent Fabius, já tinha denunciado na ONU que os ataques aéreos na Síria poderiam não visar ao EI, exigindo garantias dos objetivos reais de Moscou.

A Casa Branca, por sua vez, considerou em um comunicado que era cedo demais para dizer quais foram os alvos dos ataques aéreos russos na Síria e o que foi efetivamente bombardeado.

A campanha iniciada nesta quarta-feira é a primeira intervenção militar da Rússia longe de suas fronteiras desde a invasão soviética do Afeganistão em 1979, concluída uma década mais tarde com um estrondoso fracasso.

Para o secretário da Defesa americano, Ashton Carter, a nova estratégia da Rússia na Síria poderá inflamar ainda mais o conflito que já se arrasta há vários anos e está fadada ao fracasso.

“A abordagem adotada por Moscou equivale a jogar gasolina no fogo”, afirmou.

O Pentágono já havia declarado que os ataques russos provavelmente não ocorrem em áreas dominadas pelo EI, como alega Moscou.

Uma fonte anônima do Pentágono (Departamento de Defesa americano) afirmou que os ataques russos visaram, na realidade, à oposição ao regime sírio, reforçando a posição do chanceler francês.

Já o presidente russo Vladimir Putin defendeu os bombardeios, afirmando que se deve atuar de forma preventiva contra os jihadistas.

“A única forma apropriada de combater o terrorismo internacional é atuando de forma preventiva, combatendo e destruindo os terroristas nos territórios que conquistaram, e não esperando que cheguem até nós”, afirmou Putin.

Em Nova York, o secretário americano de Estado, John Kerry, reuniu-se com o colega russo, Sergei Lavrov, na qual os dois países acordaram realizar “o mais rapidamente possível” uma reunião para coordenar operações militares na Síria.

“Acordamos a necessidade imperiosa de ter, o mais rapidamente possível, talvez já amanhã (na quinta-feira), uma discussão entre militares” para descomprimir a situação na Síria, disse Kerry em coletiva conjunta com Lavrov.

Segundo o chefe da diplomacia americana, os dois governos acompanharão de perto a evolução da situação “porque também estamos de acordo em que é necessário encontrar uma solução e impedir uma escalada de qualquer tipo, intensificada por forças que estão além do nosso controle”.

No meio do dia, Kerry salientou diante do Conselho de Segurança da ONU que Washington não se opõe a que outros países ataquem posições do EI na Síria, se for confirmado que efetivamente se trata deste grupo radical.

“Se as ações recentes da Rússia e aquelas agora em andamento refletirem um compromisso genuíno para derrotar esta organização (EI), então estamos preparados para acolher esses esforços”, disse Kerry.

No entanto, advertiu: “Não devemos nos confundir, nem confundiremos nossa luta contra o EI apoiando Assad”.

“Mais ainda, temos que deixar claro que teríamos também graves preocupações se a Rússia atacar áreas onde o EI ou grupos ligados à Al-Qaeda não estão operando”, destacou Kerry, acrescentando que ataques deste tipo “questionariam as intenções reais de lutar contra o EI ou proteger o regime de Assad”.

Os ataques russos em território sírio claramente pegaram Washington de surpresa e disseram aos Estados Unidos diante da necessidade de recuperar a iniciativa, tanto militar quanto diplomática.

Kerry se preparava para se reunir com Lavrov, quando uma autoridade russa telefonou à embaixada americana em Bagdá.

A mensagem não poderia ser mais clara: caças russos se preparam para realizar ataques em território sírio, por favor saiam do caminho.

Kerry rapidamente protestou diante Lavrov, mas os ataques já estavam em andamento, com potencial para alterar o equilíbrio de poder na Síria a favor de Al Assad, de forma que Washington se viu diante da necessidade de reagir perante um fato consumado.

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