08/07/2015 - 16:18
A Rússia vetou nesta quarta-feira um projeto de resolução da ONU para reconhecer o massacre de Srebrenica como um “genocídio”, chamando o texto de “agressivo” e indicando que ameaçava a reconciliação na região.
Este massacre é qualificado como genocídio pela justiça internacional, o Tribunal Internacional para a ex-Iugoslávia e o Tribunal Penal Internacional, mas as autoridades sérvias da Bósnia rejeitam esse qualificador.
O projeto de resolução, proposto pelo Reino Unido, é considerado por este último como um “pré-requisito para a reconciliação” na Bósnia, visando condenar “nos termos mais fortes o genocídio”, uma tragédia que envenenou as relações entre Sérvia e Bósnia.
Outros quatro países do Conselho de Segurança da ONU, Angola, China, Nigéria e Venezuela, optaram pela abstenção na votação sobre o massacre de 8.000 muçulmanos na cidade bósnia em julho de 1995.
O embaixador russo na ONU, Vitaly Churkin, explicou que o texto era “agressivo, politicamente motivado e não construtivo”, acrescentando que enfatizava injustamente os crimes cometidos pelos sérvios da Bósnia.
“O projeto não promove a paz nos Bálcãs, mas irá reviver as tensões”, disse ele na reunião do Conselho de Segurança, que começou com um minuto de silêncio em memória das vítimas.
Churkin também explicou ante o Conselho que “centenas de milhares de sérvios” perderam suas casas durante a guerra e “sofreram tanto quanto os outros, se não mais”. Antes de concluir que a qualificação do massacre cabe aos historiadores e não ao Conselho, que deveria, segundo o embaixador russo, se concentrar nos conflitos atuais.
“Um genocídio ocorreu em Srebrenica. Este é um fato, não um julgamento. Por isso, não há nenhum compromisso”, respondeu o vice-embaixador britânico, Peter Wilson, que acusou a Rússia de ficar “ao lado daqueles que não aceitam os fatos”.
A embaixadora americana nas Nações Unidas, Samantha Power, também lamentou o veto russo, bem como as quatro abstenções.
“Se as mães das crianças executadas em Srebrenica, executadas apenas por serem bósnios muçulmanos, estivessem aqui, questionaria como alguém pode se abster face a esta realidade”, declarou ela que o cobriu o conflito como jornalista.
No sentido inverso, o presidente sérvio, Tomislav Nikolic, considerou este “um grande dia para a Sérvia”, após o veto da Rússia.
“Este é um grande dia para a Sérvia porque (a Rússia) impediu que ela fosse estigmatizada, bem como o seu povo, numa tentativa de qualificá-los de genocidas”, declarou Nikolic, a quatro dias do 20º aniversário do massacre de Srebrenica, que a justiça internacional qualificou de genocídio.
Líderes sérvios bósnios pressionaram Moscou a vetar este texto, considerado “anti-sérvio”.
O projeto também visava marcar o 20º aniversário do genocídio, liderado pelas forças comandadas pelo general Ratko Mladic.
Há 20 anos, em julho de 1995, cerca de 8.000 homens e meninos muçulmanos foram mortos em Srebrenica, no leste da Bósnia, pelas forças sérvio-bósnias, pouco antes do fim da guerra intercomunitária (1992-1995), o pior assassinato em massa na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
O enclave de Srebrenica havia sido declarado zona protegida pela ONU, mas os soldados holandeses foram incapazes de defendê-lo.
O desacordo sobre a qualificação ou não do massacre como “genocídio” prejudica há anos as relações na região.
Até recentemente, o presidente dos sérvios da Bósnia Milorad Dodik afirmou que o genocídio de Srebrenica era uma “mentira”.
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