Foram necessários apenas três meses para Mark Mobius mudar de ideia. Logo após a reeleição de Dilma Rousseff, o gestor de fundos da americana Franklin Templeton para mercados emergentes estava pessimista com o Brasil no curto prazo. Agora, o responsável pela gestão de US$ 40 bilhões vê o País com bons olhos. “A pressão popular por reformas me fez ficar mais otimista”, afirmou o executivo, em passagem por São Paulo na semana passada.

Qual é a sua exposição ao Brasil?
Dos US$ 40 bilhões, 4% estão investidos em papéis brasileiros e está cada vez mais interessante comprar ações no País. Os preços do setor de matérias-primas desabaram e as pessoas estão com medo das commodities. Estou olhando para empresas ligadas a commodities.

A corrupção da Petrobras afetou a sua visão sobre o País?
Nós sabíamos que havia corrupção. Sabíamos disso desde o momento em que viemos para o Brasil. Há cinco meses, eu estava em uma conferência em Hong Kong e executivos da Petrobras estavam lá. Perguntei ao diretor de relações com investidores qual a porcentagem de corrupção nos contratos e ele disse “cerca de 3%”. Isso é transparência (risos). Não era um grande segredo, sabíamos que isso acontecia. Fiquei surpreso com o valor que estão falando (R$ 88 bilhões).

A gestora está reduzindo a sua fatia na Petrobras?
A participação no fundo global passou de 1,2% para 1%, por perda de valor das ações. Não reduzimos.

Quais são as consequências da Operação Lava Jato?
O escândalo é uma boa notícia. A Petrobras precisa ser reformulada e será reformulada. O público está demandando isso. Mesmo que não se resolva tudo e sobre alguma sujeira debaixo do tapete, tenho certeza de que haverá melhoras. Não tenho dúvidas de que é um bom momento para se ter ações da companhia. Talvez os preços caiam por causa da dívida, mas a empresa não vai desaparecer. A demanda por óleo e gás não vai sumir.

O que acha da nova equipe da Petrobras?
Não conheço Aldemir Bendine, só sei que era presidente do Banco do Brasil. A boa notícia é que ele provavelmente sabe os caminhos para lidar com os burocratas do governo. A má notícia é que o BB não tem um histórico fantástico.

Qual deve ser a primeira medida de Bendine na companhia?
Ele precisa tornar tudo bastante transparente: onde a companhia está, quais os problemas verdadeiros e por que não está pagando os fornecedores.

Como o sr. vê intervenção estatal na economia?
É preocupante quando o governo tenta impor controle de preços e subsídios, mas a boa noticia é que os governos em todo o mundo estão tentando se livrar disso, inclusive o Brasil. Vejo uma mudança entre o primeiro mandato de Dilma para o segundo. Acho que ela percebeu o que fez de errado e que não tem escolha. Caso não mude, os investidores não voltarão. Outra coisa importante é que ela não ganhou a eleição com grande margem, então, sabe que precisa ajustar as arestas da Petrobras.

Qual é a sua perspectiva para a economia brasileira neste ano?
Acredito que vai crescer muito pouco, algo como 0,3%. Mas acho que, no ano que vem, veremos crescimento com as reformas e com a recuperação dos preços das commodities.

Quais são as suas maiores preocupações atualmente?
É a incrível volatilidade. Como pode o óleo flutuar de 20% a 30% se a demanda tem crescido? Não é oferta e demanda. A volatilidade é a razão, e o resultado é que o investidor fica com medo e esconde o seu dinheiro no banco. É neste momento que as pessoas cometem erros, porque olham mais a volatilidade do que os ativos em si.

Por que a volatilidade aumentou?
Por causa dos contratos de derivativos. Se eu acho que o petróleo vai aumentar, mesmo com pouco dinheiro, consigo especular. A nova grande crise virá dos derivativos.