23/04/2003 - 7:00
Houve um tempo em que um dinar iraquiano valia três dólares. Foi a mesma época em que o Iraque tinha o maior programa de investimentos do mundo e ganhava prêmios internacionais de alfabetização. Hoje, quando um dólar vale 5 mil dinares e o Iraque tornou-se um território em ruínas, esse período de ouro parece remoto. Mas não. O livro Saddam, o amigo do Brasil, do jornalista Leonardo Attuch, mostra que as vacas gordas pastavam no Iraque muito recentemente ? e que nessa época, os anos 70 e 80, o Brasil pegou uma longa e proveitosa carona na riqueza de Saddam Hussein. O País precisava de petróleo e de dólares, e o Iraque tinha os dois. Melhor, estava interessado naquilo que o Brasil podia oferecer: obras de engenharia, automóveis, armas e alimentos. ?Foi uma cooperação ao longo de 20 anos que produziu um comércio de 30 bilhões de dólares?, diz Attuch.
Editor de economia de DINHEIRO e um dos grandes talentos da sua geração, Attuch mostra neste livro ser um bom contador de histórias. Logo no primeiro capítulo narra a visita do presidente da Petrobras ao gabinete do ministro iraquiano do Petróleo, no início dos anos 80. O Brasil estava em moratória, já recebia uma grande cota de petróleo iraquiano e o executivo da estatal brasileira estava lá, embaraçado, para pedir mais. Depois de dizer que não tinha uma tonelada sobrando, o ministro de Saddam mudou de idéia. Foi até a ante-sala, onde esperavam vários compradores japoneses, e anunciou: ?Acabou o petróleo. Tudo o que eu tinha foi para o rapaz do Brasil?. Num período em que os japoneses compravam petróleo com 50% de ágio, o Brasil pagou preços normais de mercado. Por quê? A explicação para essa e outras larguezas tem duas vertentes. A primeira, política, é o apoio explícito que a ditadura brasileira deu a Saddam quando ele nacionalizou o petróleo iraquiano, em 1971. Os países atingidos retaliaram com um boicote ao qual o Brasil não aderiu. Saddam jamais esqueceu o gesto. A outra razão da simpatia era o desejo do Iraque de produzir armas atômicas. O Brasil tinha alguma experiência nuclear, produzia urânio e podia emprestar o brigadeiro Hugo Piva, especialista em desenho de mísseis. O esforço não resultou na construção de uma bomba, mas enquanto durou a cooperação para fazer o ?artefato? a boa vontade de Saddam não teve limites. Entrevistas com figuras importantes no período, como o ex-ministro Delfim Netto e o ex-embaixador Flecha de Lima, deixam claro que o Brasil deve um bocado ao regime despótico de Saddam.
Se no terreno público a ligação entre os dois países foi essencial, na área privada equivaleu a uma espécie de Mil e Uma Noites. A empreiteira Mendes Júnior construiu ali uma ferrovia de 553 quilômetros, no valor de US$ 1,2 bilhão. O projeto durou três anos e foi o maior contrato realizado até então por uma única empresa. A Avibrás abasteceu o Iraque com seu lançadores de mísseis Astros por anos a fio. Quando Saddam parou de pagar a Avibrás mergulhou na concordata. A Volkswagen fechou em 1984 um contrato de exportação de 175 mil Passats para o Iraque, no valor de US$ 1,7 bilhão. Foi a maior exportação de um único veículo a na história da indústria automobilística. Como outros capítulos da relação econômica com o Iraque, essas histórias provocam nostalgia ? de um tempo em que dois países emergentes tinham ambição, autonomia e recursos para fazer negócios entre si. Hoje, como diz Attuch na introdução do livro, o Brasil discute se vai de Alca ou de União Européia. Outra opção não há.