A oferta pública de compra das ações da Perdigão pela Sadia, anunciada no dia 16 de julho, prometia fazer história no mercado de capitais brasileiro. Não havia até então registro de tentativa de tomada hostil de controle acionário desse porte no País envolvendo as duas maiores empresas de um setor importante da economia. A operação, como se sabe, não foi concluída porque os principais acionistas da Perdigão, entre eles fundos de pensão, rejeitaram o preço oferecido pela Sadia. Não bastasse o malogro da operação, sabe-se agora que o que vai entrar para os anais das bolsas de valores não é propriamente a oferta pública, mas sim o mais rumoroso caso de inside information de que se tem notícia. O uso de informação privilegiada à época da operação envolveu, além das duas empresas, uma corretora paulista de porte, a Coinvalores, e o seu sócio Fernando da Silva Telles. Por coincidência no mínimo estranha, Silva Telles é genro do maior acionista individual da Sadia, o empresário Osório Henrique Furlan, pai de sua esposa Leila Furlan da Silva Telles e do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan. Pesa sobre ele a acusação de ter faturado R$ 5 milhões, em menos de uma semana, por saber antes do restante do mercado da tentativa de compra da Perdigão pela Sadia. O caso está sendo investigado pela Comissão de Valores Mobiliários, que, a partir de denúncias da Sadia e da Bolsa de Valores de São Paulo, abriu inquérito para apurar o uso de inside information. O processo, sigiloso, está em andamento.

 

Sempre que há suspeita de uso de informação privilegiada nas bolsas, os primeiros indícios são a oscilação súbita de preços e o volume de negócios muito acima da média diária. O episódio com as ações ordinárias da Perdigão não fugiu a essa regra. Nos três pregões que antecederam o anúncio oficial da oferta pública de compra das ações da Perdigão pela Sadia, nos dias 12, 13 e 14 de julho, a cotação dos títulos da empresa cobiçada pelo maior frigorífico do País subiram mais de 20%, de R$ 21 para R$ 26. E o volume de negócios diários com esses papéis na Bovespa saltou de R$ 15 milhões para R$ 77 milhões. Também na Bolsa de Nova York, as transações com os ADRs da Perdigão alcançaram nível fora do habitual. Olhando em retrospecto, é razoável supor que o movimento atípico com essas ações é que levou a direção da Sadia a antecipar o comunicado ao mercado sobre a oferta, que seria feito na terça-feira 18, para o domingo 16 de julho. A empresa, porém, sustenta que apressou o anúncio porque a valorização dos papéis estava anulando o prêmio que se dispunha a pagar aos acionistas da Perdigão.

 

A desconfiança de que algo fugira de controle foi confirmada no dia 3 de agosto, quando a Sadia recebeu carta com denúncia de que a corretora Coinvalores, de Silva Telles, estava por trás da especulação e chegou a responder por 43% do total de compra de ações da Perdigão naqueles dias. Em nota oficial de seu presidente, Walter Fontana Filho, a Sadia informou que, assim que recebeu a planilha com as operações da Coinvalores, encaminhou suas suspeitas à CVM. Já a Bovespa garante que alertou a CVM na própria semana dos volumes anormais.

Os inquéritos administrativos da CVM não são diferentes dos que correm na Justiça Comum. A fase de instrução, quando se tomam depoimentos e se colhem as provas, é lenta e costuma se arrastar por meses, às vezes anos. Mas o caso da Perdigão tem origem numa oferta pública de grande repercussão e, por isso, merece uma resposta célere do xerife do mercado de capitais. Houve ou não vazamento da oferta pública da Sadia e uso de informação privilegiada? Fernando da Silva Telles participou ou não da operação? Quanto à primeira pergunta, não há muito tempo a perder, já que a Sadia está convencida de que houve ?operações atípicas com títulos da Perdigão nos três dias anteriores e nos três dias posteriores à divulgação do Edital de Oferta Pública?. Não há dúvida: a operação vazou. E a Sadia não só comunicou o fato à CVM, em carta datada de 4 de agosto, como prestou informações à CVM e à americana SEC (Securities and Exchange Commission) sobre ?os administradores, acionistas, advogados, bancos e consultores? que tiveram acesso às informações sobre a operação, antes de sua divulgação ao mercado. Na empresa, comenta-se que estão arrolados até os nomes dos funcionários da copa que serviram café durante as reuniões que trataram do assunto.

 

Quanto à participação de Silva Telles, a resposta final caberá à CVM. Mas contra ele conspira a inédita atuação da Coinvalores, que jamais demonstrara interesse pela Perdigão e, de repente, liderou o volume de negócios com as ações da empresa, abocanhando R$ 5 milhões. Procurado por DINHEIRO, o corretor preferiu deixar as explicações por conta de seus assessores. Eles juram de pés juntos que o corretor já teria comprovado sua inocência no inquérito da CVM. Um argumento, porém, é claudicante nesses dias de internet: Fernando, que também é conselheiro da Bovespa, estaria no Exterior quando as operações foram fechadas e não soube das ordens de compra. A outra linha de defesa vai depender das investigações: segundo ele, as operações foram realizadas por ?dois grandes e tradicionais clientes pessoas físicas? da Coinvalores. A Bovespa, em nota oficial, confirmou que não há negócios em nome de nenhum dos sócios da Coinvalores. Telles, contudo, não explica por que seus ?dois grandes clientes? de um hora para outra decidiram investir pesado na ações da Perdigão, exatamente nos dias que antecederam o anúncio da oferta pública. Além disso, o corretor mantém em sigilo o nome dos investidores que venderam as ações da Perdigão entre 17 e 19 de julho, no pico da alta. Diz que, submetido ao segredo de Justiça, não pode revelar o teor do seu depoimento.

Se o uso de inside information ocorreu e Silva Telles não foi o responsável, quem, então, teria cometido o ato ilícito? A resposta deve estar entre as dezenas de nomes arrolados pela Sadia, de todos que tiveram acesso ao edital da oferta de compra. Um deles, é o de Luiz Fernando Furlan, que, quando assumiu o Ministério, repassou a parentes todas as ações que possuía da Sadia, empresa de sua família. O pai do ministro, Osório Henrique Furlan, detém 5,82% das ações ordinárias, e sua mãe, Lucy Fontana Furlan, é irmã do fundador da Sadia, Attílio Fontana. Através da Sunflower Participações, a família Fontana controla 12,46% do capital votante. Furlan, portanto, é herdeiro da Sadia pelos dois lados, mas se afastou do acordo de acionistas (um dos órgãos decisórios da Sadia) para atender às exigências da Comissão de Ética Pública da Presidência da República. A princípio, Furlan não é alvo de investigação da CVM, cujo foco deve estar centrado na Coinvalores. Com o inquérito em andamento, a CVM mantém a tradição e fecha-se em copas. Do prédio da rua 7 de Setembro, no Centro do Rio, não vaza nenhuma informação.