23/04/2003 - 7:00
O ministro do Planejamento, Guido Mantega, passou os últimos três meses afogado em números. Mas na terça-feira 15, depois de cumprir uma maratona analisando projeções econômicas, gráficos e tabelas, sua obra estava pronta. Naquela manhã, Mantega entregou ao presidente do Congresso, José Sarney, a Lei de Diretrizes Orçamentárias. É a principal peça econômica do governo Lula, que lança luzes sobre como será o desempenho do País não apenas no próximo ano, mas durante toda a administração petista. O que se prevê é mais do mesmo: a combinação conservadora de aperto fiscal e crescimento tímido. Um exemplo: até 2006, o superávit primário será de 4,25% do PIB ? maior do que o que vigorou na era FHC. Lula, portanto, formalizou seu compromisso com a austeridade. Mesmo assim, até o fim da sua gestão, a dívida interna permancerá em níveis ainda elevados. No melhor cenário traçado por Mantega, a relação dívida/PIB cai para 51%, e apenas em 2006. A taxa de
crescimento aumentaria gradativamente até chegar a 4,5% em 2006. É menos do que o Brasil precisa. ?Pode vir a ser melhor?, garantiu Mantega. ?O crescimento tem tudo para ser mais forte do que estamos prevendo.?
A grande preocupação de Mantega, ao explicar os detalhes
da LDO, foi ressaltar que a política econômica do governo
Lula é bem diferente da de FHC ? embora muitos críticos
duvidem disso. ?A sinalização é de continuidade?, diz o
economista Fábio Giambiagi, do BNDES. Mas a tese de Mantega é que, com uma política fiscal mais dura, o governo terá condições para afrouxar a política monetária, reduzir os juros e estimular o crescimento. Na LDO, prevê-se que a taxa de juros nominal, hoje em 26,5%, cairá para 14,8% em 2004 e chegará aos civilizados 6,6% em 2006. São projeções realistas? ?Os números são factíveis, mas dependem do que será feito pelo Congresso?, avisa o economista Antônio Corrêa de Lacerda, da Siemens. Na sua avaliação, caso o governo consiga de fato aprovar as reformas tributária e da Previdência, o risco-país e o dólar desabarão, facilitando a queda dos juros. E, de fato, a perspectiva de que essas reformas aconteçam já fez com que o dólar caísse bastante na última semana, sendo cotado a R$ 3,09 na quarta-feira 16.
A LDO com números trienais de Mantega faz parte da estratégia do governo Lula de relançar a idéia de planejamento de longo prazo. O próximo passo nessa direção será o envio ao Congresso do Plano Plurianual, que terá metas de 20 anos para questões como crescimento, emprego, equilíbrio fiscal e temas sociais. ?O planejamento não deve ser apenas do governo, mas do País como um todo?, avalia o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci. Guido Mantega e sua equipe de técnicos, portanto, terão pouco tempo para descansar. Terão novamente de se afogar em números, gráficos e tabelas para desenhar o que será o Brasil até 2022.