No dia 2 de janeiro, quando o sistema bancário reabrir na Argentina, será testada a mais radical experiência econômica já colocada em prática na América Latina. Depois de um feriado bancário que terá durado dez dias, uma convulsão social que deixou 21 mortos e derrubou o governo de Fernando De La Rúa, os argentinos encontrarão na volta aos guichês bancários uma nova moeda, o argentino, e passarão a viver uma situação de moratória em suas contas internacionais. Um calote de US$ 132 bilhões, o maior da história. A única certeza dos argentinos é que, no curto prazo, estarão ainda mais pobres, mas também livres das amarras do câmbio fixo, que condenava o país a uma recessão sem fim. Pelo pacote de medidas lançado pelo presidente provisório, o peronista Adolfo Rodríguez Saá, quem quiser sacar seus recursos terá de retirá-los na nova moeda, e não mais em pesos ou em dólares. Isso significa que o regime cambial criado em 1991 pela Lei de Conversibilidade, igualando a moeda argentina à americana, chegou ao fim de forma trágica, após quase quatro anos de depressão econômica.

O novo secretário da Fazenda, Rodolfo Frigeri, que substituiu Domingo Cavallo, não poderia ser mais claro. ?A nova moeda trará uma saída ordenada da conversibilidade?, afirmou na quarta-feira 26. ?Começará valendo o mesmo que um peso, mas não descartamos sua desvalorização.? Ou seja: os argentinos, que durante muitos anos viveram a ilusão de que poderiam consumir como cidadãos americanos, rasgaram a própria fantasia. Receberão seus salários e pagarão suas contas e impostos em argentinos, uma moeda que flutuará em relação ao dólar. ?A tendência é que, pouco a pouco, a população substitua completamente os pesos em circulação?, disse à DINHEIRO Ricardo Fuente, sócio da Ecolatina, uma das principais consultorias econômicas argentinas. O que se discute agora é o tamanho da desvalorização que virá pela frente, os riscos de hiperinflação e as formas de se evitar uma quebradeira generalizada dos bancos. ?Se não houver limites de saques dos depósitos a prazo, o risco de falências bancárias é concreto?, diz Fuente. A principal alternativa que a equipe de Frigeri estuda envolve a criação de incentivos para que as pessoas aceitem voluntariamente a troca de moedas. Depósitos em argentinos, que começam a circular em janeiro, poderão ser sacados à vista. Depósitos em pesos ou dólares, segundo analistas locais, deverão continuar bloqueados por mais tempo, numa espécie de confisco. Até porque o sistema financeiro argentino perdeu US$ 19 bilhões ao longo de 2001 e não teria recursos para suportar uma eventual corrida bancária. As reservas líquidas são de apenas US$ 3,3 bilhões.

 

Fim da letargia. Mas na mesma medida da certeza de que o pacote de medidas econômicas traz custos e até agrava a situação econômica no curto prazo ? estima-se uma queda de até 7% do PIB em 2002 ? os argentinos já vislumbram uma esperança de dias melhores. Com o regime de câmbio fixo, a economia afundou quatro anos seguidos. Agora, com uma nova moeda que se desvalorizará em relação ao dólar, pode acontecer na Argentina o mesmo que ocorreu no México, na Rússia ou no Brasil. Todos esses países reencontraram o caminho do crescimento após depreciarem suas moedas. ?Saímos do estado de letargia?, diz um alto diplomata da chancelaria argentina. ?Se a emissão de argentinos for equivalente a uns US$ 5 bilhões, será saudável para a economia.? O risco, na sua avaliação, é de uma emissão descontrolada, que leve o país à hiperinflação.

 

A guiar o plano, o presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá vai combinando a adoção de medidas de estímulo econômico bem ao estilo peronista ? como a elevação em 100% do salário mínimo para 400 pesos, a criação de frentes de trabalho para gerar 1 milhão de empregos e a devolução aos aposentados dos 13% em seus vencimentos confiscados por Cavallo ?, com a cautela que faz o secretário Frigeri admitir que limites altos para saques bancários colocariam em risco o sistema financeiro. ?É um pacote claramente populista?, diz o economista Samatha Salvetti, do banco Fator. Mas é importante lembrar que Saá tem apenas 60 dias para mostrar resultados ? se o pacote der certo, ele será, naturalmente, o favorito nas eleições de 3 de março. Além disso, se não houvesse nenhuma medida para atenuar o caos social, a Argentina ainda poderia estar em chamas.

A disposição mostrada por ??El Adolfo??, como o novo presidente é conhecido, anima os argentinos. Eleito desde 1983 para o governo da Província de San Luis, onde nasceu, ele ficou conhecido por fazer gestões que permitiram à sua região manter em pleno funcionamento um dos poucos pólos industriais dinâmicos do país, com contas razoavelmente equibradas. Nos últimos tempos, San Luis tornou-se a melhor alternativa migratória para desempregados de outras regiões. Na Casa Rosada, ele já ganhou pontos por receber as mães da Praça de Maio, os líderes sindicais, os responsáveis pelos saques ao comércio e, em seguida, os empresários atingidos pela onda de violência. Todos o apoiaram, dizendo tratar-se da pessoa certa na hora certa. Em uma semana, Saá teve uma agenda mais movimentada do que a do ex De La Rúa em dois anos. Hoje, a Argentina acredita ter em Sáa e Frigeri uma dupla que age sob respaldo do parlamento e promove uma guinada na direção dos anseios da população. Pode parecer insuficiente, mas já não é um governo que administre apenas para o mercado.

No Brasil, a perspectiva de uma solução para a crise argentina é positiva. Como a tendência é de uma convergência entre os regimes cambiais, com duas moedas flutuantes em relação ao dólar, abre-se espaço para a retomada do fluxo de comércio no Mercosul. Além disso, o comportamento do mercado financeiro brasileiro após o anúncio da moratória argentina deixou claro que não haverá contágio negativo. Na segunda-feira 24, primeiro dia útil após o anúncio do calote, o principal papel da dívida externa argentina virou pó ? caiu 31% e passou a ser negociado com deságio de 80%. Os títulos da dívida brasileira caíram apenas 0,16%. Além disso, ainda que o desfecho da crise argentina tenha acontecido em uma semana de fraco movimento, o dólar permaneceu estável no mercado brasileiro. ?O Brasil descolou de vez da Argentina porque o déficit externo caiu, os resultados fiscais são positivos e a entrada de dólares tem sido bem maior do que se previa?, diz André Loes, economista do Santander.