O sapateiro Miguel Sábio de Mello, que fundou a Samello em 1926, não reconheceria a empresa administrada hoje por seus netos. Eles estão dispostos a iniciar um projeto ambicioso no próximo ano: a abertura de franquias no exterior. A aventura começará pelo Japão ? e de uma forma bem radical. A Samello, sinônimo do sapato do homem com mais de 40 anos, agora também vai vender para jovens descolados. ?Para conquistar os japoneses, você tem de fazer uma opção: ou é ultratradicional ou é ultramoderno?, diz Marina Mello, a neta
que desenha os modelos e atende os clientes internacionais. ?Optamos pelo segundo estilo.?

Esse novo passo da Samello virá com a linha Fórmula I, ?feita para chocar? nas palavras de Marina. São sapatos futuristas, com fôrmas diferentes e cores vibrantes ? tudo o que a Samello jamais teve. O objetivo, segundo a empresária, não é fazer volume, mas criar um conceito. A Samello, que já fabrica para grifes internacionais como Zara, Ralph Lauren, Michael Kors e a brasileira Daslu, também quer produzir para poucos e bons com a sua própria etiqueta. A estra-
tégia é parecida com a da Havaianas, que vende sandálias de borracha a preço de ouro no exterior. ?Para criar uma marca fashion você tem de começar pelo topo da pirâmide?, diz Angela Hirata, diretora de comércio exterior da Alpargatas, dona da Havaianas. ?Mas o negócio só dá certo se o parceiro for bom.? A Samello não está dando um tiro no escuro. Está junto com uma rede de lojas de departamentos na empreitada.

Para boa parte das grifes, o sucesso no Japão é crucial para manter uma forte franquia mundial. Segundo estimativas da Merrill Lynch, os japoneses compram cerca de 40% das bolsas, sapatos e outros itens de luxo vendidos no mundo. Se a experiência der certo, a idéia é repetir a fórmula na Europa. Enquanto as franquias não se proliferam no exterior, a Samello
não pára de abrir portas no Brasil. Ela vai fechar o ano com 24 e pretende atingir 80 franquias em 2007. A empresa chegou a ter mais de 50 lojas, mas sobraram apenas três pontos daquele modelo de sapatarias enormes e com pilhas gigantescas de caixas pelo salão. Desta vez o conceito é outro. Elas ficam em shoppings, são menores e mais sofisticadas e vendem até para mulheres e esportistas. ?Temos que acompanhar a evolução da moda?, diz Tom Mello, diretor de marketing da Samello, um grupo de US$ 100 milhões ao ano e que exporta 6 mil pares de sapato por dia. Seu Miguel não imaginava chegar a tal ponto. Mas nem seus netos previam ouvir os japoneses pedindo sapato ?Samero, né??