05/02/2026 - 7:30
Para o CEO da Scania para a América Latina, Christopher Podgorski, não há uma ‘bala de prata’ para resolver o problema da renovação da matriz energética nos transportes. A tese do executivo é de que o futuro é ‘eclético, e não elétrico’ – e de olho nisso, a companhia planeja aumentar seu share de produção de veículos e componentes elétricos nos próximos anos.
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Em participação no Dinheiro Entrevista, Podgorski relata que os dados apontam que, até 2040, a matriz de transporte será neutra em termos de emissão de carbono – do total, 40% da composição da matriz será de soluções eletrificadas.
Os desafios para aumentar a frota de caminhões elétricos, entretanto, são muito mais de viabilidade econômica e de mudança de mercado – e de comportamentos de consumo – do que te de tecnologia, uma batalha que a indústria considera vencida.
“O carbono é um inimigo difícil de abater e o tema não é mais tecnologia; a tecnologia é dominante, é provada. Nós não falamos hoje de protótipos, estamos falando de produtos disponíveis comercialmente, com escala industrial e com toda a confiabilidade. Já estamos produzindo chassis de ônibus elétricos aqui em São Bernardo do Campo, e à medida que negócios potenciais se concretizem com alguns players importantes, nós também vamos passar a produzir os os caminhões elétricos no Brasil”, diz.
O prognóstico é de que os primeiros países a serem eletrificados serão os que desenvolveram, além da tecnologia, o ‘aprendizado e as melhores maneiras de criar a infraestrutura’ – com uma rede de carregadores sustentável financeiramente e com escala, por exemplo.
“Você precisa criar políticas públicas, instrumentos de financiamento e uma nova estrutura de transporte que tem que competir com uma que já tem 120 anos”, avalia o CEO da Scania.
Atualmente a Scania ainda não produz caminhões elétricos em solo brasileiro, apenas componentes.
A empresa anunciou um ciclo de investimentos de R$ 2 bilhões no Brasil para o período 2025-2028, cujo foco principal é a eletrificação e descarbonização, visando a produção de veículos pesados elétricos em São Bernardo do Campo (SP), consolidando a planta como líder tecnológica na América Latina.
Desde março de 2025 os chassis de ônibus elétricos são produzidos na planta fabril.
Fora da América Latina, a empresa realiza a produção e montagem de caminhões elétricos pesados (Battery Electric Vehicles, ou BEV) em Södertälje, na Suécia, onde a montadora tem capacidade para produzir caminhões elétricos completos e também uma fábrica dedicada à montagem de baterias para esses veículos. O primeiro modelo do tipo foi montado em meados de setembro de 2020.
Globalmente falando, com base nos dados mais recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) e relatórios de mercado como o BloombergNEF, de 3% a 5% das vendas anuais de novos caminhões são elétricos.
Em se tratando da frota total em circulação, o número é consideravelmente menor, de menos de 1%.
Comprar um caminhão elétrico é trocar Capex por Opex
Em se tratando da conta financeira sobre os caminhões elétricos, Podgorski relata que, no fim do dia, é uma questão de a companhia priorizar retornos de prazos mais longos.
A matemática da coisa consiste na troca entre Capex por Opex. Capex é o dinheiro investido em ativos ou bens e projetos de longo prazo, ao passo que o Opex é o gasto do dia a dia para manter a operação rodando – um constrói o futuro da empresa, o outro mantém o presente funcionando.
Nesse caso, o Capex seria a compra de um caminhão, ao passo que o Opex seria o custo de manutenção e o combustível.
“Se você compra um veículo diesel hoje, você vai pagar um X e você vai ter um custo de manutenção Y. Se você compra um elétrico, você vai pagar 2,5 X, mas você vai reduzir substancialmente o seus custos operacionais, tanto no custo da energia, com o preço do quilowatt-hora (kWh) quanto na manutenção, já que tem menos peças móveis”, explica o executivo.
“É uma equação que muda, dependendo do tamanho da sua carteira. Se você puder investir mais, você terá um retorno maior ao longo do tempo”, completa.
Ele também detalha que essa troca é mais vantajosa a depender dos clientes, quanto há mais acesso a cargas de empresas que ‘reconheçam o valor de uma operação descarbonizada’.
Scania vê concentração na infraestrutura de elétricos
Em termos de rede de infraestrutura, o executivo vê uma eletrificação começando ‘principalmente em zonas conurbadas’, tanto no transporte de passageiros quanto no de cargas, com veículos mais leves.
Depois disso, paulatinamente a distribuição é intensificada.
No momento, a visão é de que existe um polo no Sudeste, e que a densidade de carregadores e outros itens só deve aumentar ao longo dos próximos anos.
“Quando olhamos o mapa do Brasil, que na prática funciona como vários países dentro de um só, vemos dois grandes eixos: Rio–São Paulo e São Paulo–Campinas, ou regiões próximas. É nessas áreas que a maior parte dos data centers está instalada ou em processo de instalação, o que significa maior disponibilidade de energia elétrica e infraestrutura. Hoje, já é possível afirmar que existe um corredor eletrificado nesses dois eixos, que concentram cerca de um terço da economia brasileira, em termos de PIB.”
O tema já foi abordado por outros executivos que participaram do Dinheiro Entrevista. O CEO da Indigo avaliou que faltam carregadores de ‘meio de jornada’ e que há concentração em estabelecimentos como shoppings, ao passo que o Vice-Presidente Sênior da BYD no Brasil alegou que há ausência de políticas públicas que incentivem uma renovação da frota nacional.
