“Com relação ao modelo de governança mais socialista, funciona. Funciona tudo, tudo funciona”. Essas são as palavras do CEO da Scania para a América Latina, Christopher Podgorski, sobre o modelo econômico da Suécia — e, em partes, sobre o restante da Escandinávia, com países adeptos de políticas de welfare state (Estado de bem-estar social) e que apostam na social-democracia.

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A Scania surgiu no século retrasado em solo sueco e, segundo o executivo, mesmo com um Estado mais arrecadador e fazendo o papel de uma figura mais assistencial, a competitividade do setor privado é preservada.

Como exemplo, cita também que a Suécia é o país que mais cria patentes, e que é um ‘berço de inovação’ ainda que exista assistencialismo estatal.

“Eu sou fã e admirador de como eles conseguem encontrar o equilíbrio que promove saúde mental, um equilíbrio entre o trabalho, família, lazer, sem deixar de ser uma força laboral ou de criação de tecnologia, força intelectual extraordinária (…) se você precisa saúde, transporte, infraestrutura, está tudo lá”, conta, em participação no Dinheiro Entrevista.

O executivo frisa que ‘um cidadão sueco médio tem 50% do seu salário recolhido em impostos‘, mas não gasta praticamente nada com serviços básicos — ou seja, os proventos ficam totalmente direcionados ao bem-estar.

“Basicamente, o líquido que fica para ele é para o seu bem-estar familiar, lazer, turismo, o imposto pago vale o que o Estado entrega; funciona.”

A avaliação é de que há alternância de poder, com a democracia pendendo ‘ora para direita, ora para esquerda’, mas os fundamentos da sociedade ‘funcionam de forma perene.

Universo corporativo mais horizontal

Durante sua trajetória, o executivo chegou a visitar a Suécia algumas vezes e mantém diálogo com a matriz por liderar as operações industriais na América Latina.

No mundo corporativo, aponta que a horizontalidade é valorizada. Em suma, Christopher Podgorski diz que independente do cargo, decisões orientadas por evidências e dados são respeitadas.

“Lá você pode ser o CEO ou estagiário, qualquer um tem o direito e vai exercer esse direito de questionar o que você está falando. Eles alongam o tempo de discussão até encontrar o consenso, e quando existe o consenso, a decisão é tomada e a execução é feita de maneira rápida, robusta e eficiente. Não existe hierarquia para as discussões, existe uma discussão aberta para que a decisão seja plenamente discutida e consensuada.”

A sua visão é de que essa dinâmica cria uma ‘sociedade previsível, resiliente e que continua se desenvolvendo ao longo do tempo’.

Como funciona o ‘socialismo escandinavo’

O termo ‘Socialismo Escandinavo‘, na verdade, não é científico — acadêmicos não consideram os países da Escandinávia socialistas. Entretanto, o que existe em países como Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia são modelos econômicos que mesclam uma economia de mercado competitiva combinada e um Estado de Bem-Estar Social robusto.

O termo mais utilizado para descrever a governança estatal do país é o Welfare State — termo da ciência política que se refere ao Estado de Bem-Estar Social, em que o Estado assume a responsabilidade primária pela promoção do bem-estar social e econômico dos cidadãos.

Com isso, os países possuem como pilares fundamentais a universalidade dos serviços de saúde, educação, além de auxílio-desemprego.

O Estado também provê uma rede de segurança, com proteção do berço ao túmulo, garantindo que ninguém caia na pobreza extrema por motivos de saúde ou perda de emprego.

Para custear essas políticas, há um financiamento via impostos, com carga tributária elevada.

A  média de impostos (tax-to-GDP) na OCDE em 2024 foi cerca de 34,1% do PIB. Na Dinamarca, por exemplo, essa taxa fica em 45,2%, com uma das maiores cargas tributárias do mundo entre países desenvolvidos.

A Suécia opera sob uma economia de mercado com forte regulação social, sendo um dos países mais amigáveis ao livre comércio e ao empreendedorismo no mundo. Com esse ‘capitalismo de base’, o país é berço de grandes multinacionais como IKEA, Volvo, Spotify e Scania.

Durante sua história o país implementou políticas como o Acordo de Saltsjöbaden, firmado em 1938, que é considerado um dos marcos fundadores do modelo sueco de relações trabalhistas — e um item emblemático sobre a conciliação entre crescimento econômico, estabilidade social e Estado de bem-estar social.

Após um período de tensão e greves frequentes, o acordo foi assinado, firmando um pacto de autorregulação ao estabelecer princípios claros.

As partes reconheceram a legitimidade mútua como interlocutores, definiram limites para greves e lockouts, criaram mecanismos de mediação para conflitos e consolidaram o direito das empresas de organizar a produção, ao mesmo tempo em que garantiram espaço para a atuação sindical. O conflito não foi eliminado, mas passou a ser institucionalizado, previsível e negociado dentro de regras conhecidas.

Outro conceito que nasceu por lá foi a flexisegurança, uma política que também é fruto de décadas de construção institucional baseada em negociação coletiva forte, políticas ativas de emprego e um sistema amplo de bem-estar social.

O ponto central do modelo é equilibrar flexibilidade para as empresas com segurança econômica para os trabalhadores, reduzindo o custo social das transições no mercado de trabalho.

Pelo lado da flexibilidade, o mercado de trabalho sueco permite que empresas ajustem sua força de trabalho de acordo com o ciclo econômico, com regras claras para contratações e demissões — não é um sistema totalmente desregulado e os custos de ajuste são relativamente previsíveis.

No lado da segurança, por sua vez, não está centrada na preservação do posto de trabalho específico, mas na proteção da renda e da empregabilidade do trabalhador. A Suécia conta com um sistema robusto de seguro-desemprego, complementado por políticas ativas de mercado de trabalho, como programas de requalificação profissional, apoio à recolocação e incentivo à mobilidade entre setores.

Quando isso começou

O modelo nórdico começou a ganhar corpo na década de 1930, impulsionado pelo Partido Social-Democrata que tinha como objetivo criar a “Folkhemmet”, que significa ‘A Casa do Povo’ — em linhas gerais, uma sociedade onde a desigualdade fosse minimizada. Essa dinâmica perdura até a atualidade, entretanto com algumas mudanças.

O auge foi entre as décadas de 1950 e 1970, quando o Estado cresceu agressivamente, com impostos atingindo níveis altíssimos. Mais tarde, a Suécia enfrentou uma crise nos anos 1990, por conta de uma bolha imobiliária e estagnação econômica — o que forçou o país a fazer reformas liberais.

Na esteira disso, o governo reduziu impostos corporativos, privatizou alguns serviços públicos (como partes do sistema de saúde e educação através de vouchers) e reformou a previdência para torná-la sustentável.

Assim, nos dias atuais o modelo econômico da Suécia é mais pragmático, mantendo proteção social, mas com uma economia de mercado dinâmica para gerar a riqueza que paga esses benefícios.