01/04/2009 - 7:00

GUSTAVO FRANCO:
“Nos primeiros anos do Plano Real, fizemos o que podia ser feito. Hoje há espaço para corte maior dos juros”
PEDRO MALAN:
“Qualquer um constrói sobre um alicerce já feito. Podiam fazer mais”
FHC:
“O governo deveria gastar menos e melhor. A máquina estatal é ineficiente”
O FILME SE EU FOSSE VOCÊ 2, RECORDE de bilheteria na história do cinema nacional, conta a história de um casal – interpretado por Tony Ramos e Glória Pires – que, em meio às brigas e discussões do cotidiano, invertem seus papéis. Na semana passada, era possível observar algo semelhante na economia. Os três responsáveis pela condução do País nos primeiros oito anos do Plano Real, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco se imaginaram no lugar dos seus sucessores.
E, especialistas em turbulências econômicas – afinal, enfrentaram seis crises em oito anos de gestão -, passaram a dar conselhos ao presidente Lula e à sua equipe. “O governo deveria gastar menos e melhor”, disse FHC. “Qualquer um constrói sobre um alicerce já feito. Podiam fazer mais”, alfinetou Malan. “Há espaço para um corte maior nos juros”, completou Franco, durante o evento de comemoração de 15 anos do Plano Real, na Fecomércio, em São Paulo.

DOIS MOMENTOS:
Franco e Malan (acima), em 1998, quando foram pedir empréstimo de US$ 41 bilhões ao FMI. Ao lado, em janeiro de 1999, Malan e FHC dias depois da desvalorização do real
Os três mosqueteiros do Real viveram momentos dramáticos enquanto estiveram no poder. Foram três vezes ao Fundo Monetário Internacional e tiveram de enfrentar os terremotos que partiram do México, da Ásia, da Rússia e do próprio Brasil, em anos alternados. Mas algumas crises, além de combatidas, foram semeadas internamente. Em todas elas o Brasil foi alvo fácil dos especuladores porque não dispunha de reservas internacionais e estava aferrado a uma política cambial que valorizava o real em relação ao dólar.
Nos momentos mais agudos da era FHC, a taxa de juros chegou a inacreditáveis 54% ao ano. Com ela, o governo defendeu um regime cambial equivocado, que reduziu o ritmo de crescimento do País e fez um estrago na dívida interna (leia quadro abaixo). “Uma expressiva redução dos juros hoje é possível, mas naquela época não era”, diz Malan. Na verdade, os juros eram altos porque serviam para atrair capitais especulativos, que ajudavam o País a manter um câmbio fixo, que foi crucial na reeleição de FHC. E foi só com a desvalorização do real de 1999, que selou a saída de Gustavo Franco do governo, que o País conseguiu se safar da camisa-de-força. “Começamos a nos libertar ali”, diz o professor e ex-ministro Delfim Netto.
Isso não significa que a gestão tucana na economia tenha representado uma “herança maldita”, como diziam os ministros do governo Lula logo que tomaram posse, em janeiro de 2003. O Plano Real foi extremamente bem-sucedido no combate à inflação e veio acompanhado de reformas que modernizaram a estrutura econômica brasileira, como a privatização e a criação das agências reguladoras. As empresas cresceram, a arrecadação disparou e, graças a isso, o governo hoje tem espaço para lançar políticas monetárias e fiscais anticíclicas.

“Se hoje podemos comemorar a chance de uma Selic abaixo de 10% é porque colocamos a casa em ordem”, justificou o excomandante do BC Gustavo Franco. Tucanos e petistas jamais chegarão a um entendimento sobre quem fez mais pela estabilidade econômica. É parte do jogo político. Mas é interessante notar que hoje há uma convergência a respeito dos passos a serem tomados. FHC, Malan e Gustavo Franco são favoráveis a um gasto maior em infraestrutura – e é essa a essência do PAC. O ex-presidente, no entanto, diz que tudo já havia sido semeado na sua gestão.
“O resto é plano de aceleração da comunicação”, diz o ex-presidente. Os três homens fortes do Real também falam em juros menores – o que é praticamente um consenso entre economistas. “A gestão Fernando Henrique construiu as bases da economia e Lula as aprimorou. Não houve rupturas. Evidentemente, houve uma continuidade”, avalia o economista Alcides Leite, autor do livro Brasil – A trajetória de um país forte. E a lição que fica da comemoração dos 15 anos do Real é a de que, se fosse possível inverter os papéis, colocando FHC, Malan e Franco na pele de Lula, Guido Mantega e Henrique Meirelles, pouca coisa mudaria. E é possível até que, no futuro, os 16 anos de FHC e Lula no poder sejam percebidos como parte de uma mesma construção política e econômica.