11/12/2002 - 8:00
Um choque de interesses entre o empresariado nacional, o governo que sai e o governo que entra está marcado para esta sexta-feira 13. Nesse dia, depois de um mês de intensas negociações de bastidores entre os três grupos, deverá ser eleito um tucano para a presidência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o poderoso Sebrae. O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva gostaria de controlar a entidade. Chegou a conversar sobre o assunto com o presidente Fernando Henrique Cardoso nas duas vezes em que jantaram juntos no Palácio da Alvorada. Também enviou Antônio Palocci e José Dirceu para negociarem a transição da entidade com o ministro do Desenvolvimento, Sérgio Amaral. O problema é que Fernando Henrique não quer abrir mão de sua influência sobre o Sebrae. A negociação também está envolvendo o empresariado. As confederações nacionais da Indústria (CNI), do Comércio (CNC) e da Agricultura (CNA), que dividem com o governo o controle da entidade, acertaram entre si que não vão entregar de graça o Sebrae para o governo do PT. Querem conversar ? e muito ? sobre os mais diferentes assuntos. O resultado é que nesta sexta-feira, o Conselho Deliberativo da entidade deve reeleger o atual presidente, Sérgio Moreira, para um novo mandato de dois anos. Ele é amigo de FHC e homem de confiança de Ruth Cardoso. O atual governo e os empresários concederam ao PT, caso o partido queira negociar, a indicação de dois diretores executivos, o financeiro e o técnico.
?O Sebrae virou estratégico para a retomada do crescimento e a criação de empregos?, explica o presidente de CNI, deputado Armando Monteiro Neto. ?Precisamos manter uma gestão de excelência na entidade.? Dentro do PT, quem mais tem se movimentado para controlar a entidade é o senador Saturnino Braga, do Rio. Ele ainda tem esperança de emplacar o ex-deputado Luís Alfredo Salomão para o lugar do presidente Sérgio Moreira. Os caciques do PT têm argumentado que toda a política econômica do partido passa pelo apoio às pequenas empresas. O Sebrae tornou-se nos últimos quatro anos uma das entidades mais poderosas do País. É a terceira agência de fomento às empresas, depois do Banco do Brasil e do BNDES. A receita anual é de R$ 550 milhões, no mesmo patamar do Metrô de São Paulo e da Gillette do Brasil. Está nos 27 Estados e tem uma rede de 600 pontos de atendimento em 3.300 municípios, equivalente às malhas do Unibanco e do Santander. Possui 4.500 funcionários, o mesmo que a fabricante de compressores Embraco, ou quatro vezes mais do que a Pfizer. Este ano o Sebrae realizou 6 milhões de consultas a microempresários, promoveu 40 mil cursos e eventos e treinou 3,5 milhões de empreendedores. ?Queremos manter o que está dando certo?, afirma Hélio Cadore, representante da Associação Brasileira dos Sebraes Estaduais no Conselho Deliberativo do Sebrae Nacional.
As 3,6 milhões de pequenas empresas formais representam 20% do PIB e 44% da força de trabalho no País. Junte-se a elas as 14,5 milhões de microempresas informais, segundo o Dieese, e aí se tem a dimensão do poder em jogo no Sebrae. A entidade é mantida com uma contribuição de 0,3% sobre as folhas salariais das empresas. Por isso as três grandes confederações empresariais têm tanta força no Conselho Deliberativo, que escolhe o diretor-presidente. Na última quinta-feira 5, o Conselho se reuniu em Brasília para decidir o destino da entidade pelos próximos dois anos.
Elegeram o deputado Armando Monteiro Neto como novo presidente do Conselho Deliberativo. A reunião ocorreu em clima de bate-boca. O empresário Abram Szajman quis lançar sua candidatura, mas não teve apoio sequer da diretoria da CNC, entidade a qual representa ? Monteiro chegou antes e garantiu o voto nos bastidores. ?O senhor não me procurou para pedir meu voto, por isso mal o conheço?, atacou Szajman. ?Preferi me acertar com o seu presidente?, esnobou Monteiro. Na segunda parte da reunião, decidiram marcar para 13 de dezembro a eleição da diretoria executiva ? que de fato vai controlar o dinheiro do Sebrae. O tucano Sérgio Moreira tem Fernando Henrique e Armando Monteiro como seus principais cabos eleitorais. Ele já fechou 11 dos 13 votos no Conselho. Monteiro e o ministro Sérgio Amaral ficaram de negociar com José Dirceu e Antônio Palocci a indicação dos outros dois diretores. Se o PT não aceitar esse acordo honroso, a aliança do empresariado com o atual governo pode deixar o futuro governo de fora do Sebrae.