“Uma vez ou outra, chega um produto que muda tudo. Hoje, a Apple vai reinventar o telefone”. A frase, dita pelo cofundador da gigante norte-americana, Steve Jobs, soava vaticínio.

E era. Naquele momento, em 2007, ele apresentava o primeiro iPhone, modelo que acabaria por transformar o segmento. Os números mostram como Jobs estava certo: desde o seu lançamento, já foram vendidos mais de três bilhões do celular no mundo.

+CEO da TOTVS critica etarismo no mercado de trabalho e diz que 50 são os novos 30

+Sete prefeitos de capitais deixam cargos e embalam disputa aos governos estaduais

Para o então líder da Apple, apostar alto não era questão de ego – ou de marketing -, mas de convicção da característica inovadora dos produtos desenvolvidos pela companhia. Hoje, com 50 anos recém cumpridos, a big tech celebra o sucesso não apenas do iPhone, mas de uma coleção de dispositivos que figuraram entre os mais cobiçados do mercado no tempo em que foram lançados. Com todo o arsenal de invenções que criou ao longo dessas cinco décadas, a empresa – que nasceu na garagem da família de Jobs, em Cupertino (Califórnia) – atingiu um valor de mercado em torno de US$ 3,73 trilhões.

Fundada em 1º de abril de 1976 sob o nome Apple Computers, a companhia não perdeu tempo e lançou no mesmo ano um protótipo do Apple 1, primeiro computador pessoal da marca. Apesar de não ser um exemplo de vendas, o produto colocou a companhia na mira dos investidores e renovou a inspiração de Jobs e de sócio, Steve Wozniak – Ronald Wayne foi um dos fundadores, mas, inseguro quanto ao futuro do negócio, vendeu sua participação (de 10%) poucos dias depois por US$ 800.

Com o Apple 1, começava um processo de formação de identidade e DNA carregado até os dias de hoje: design elegante e foco na experiência do usuário. Com o lançamento do Apple II, em 1977, a marca se afastou dos entusiastas e passou a oferecer computadores acessíveis para quem tivesse interesse, e, é claro, dinheiro.

Ao contrário de seu antecessor, o Apple II já vinha montado em um gabinete de plástico, contava com gráficos coloridos e teclado embutido, revoluções que prometiam trazer o computador pessoal ao alcance de toda a família. A aposta vingou.

A máquina se tornou o primeiro grande grande sucesso da companhia, vendendo cerca de seis milhões de unidades em seus diferentes modelos e dando largada a uma nova geração de fãs de informática, programação e jogos digitais. O custo era alto, mas não tão alto para se tornar inacessível para famílias norte-americanas de classe média, ao contrário da próxima empreitada de Jobs: o Apple Lisa.

A ideia surgiu após a empresa receber um convite da Xerox para conhecer seu novo produto, o Alto, um computador pessoal que contava com elementos gráficos que hoje são indispensáveis, como menus e janelas pop-up.

O presidente da Apple simplesmente não conseguia entender o motivo da empresa que inventou a fotocopiadora (a Xerox) revelar suas tecnologias de graça, mas sabia que estava olhando para o futuro dos PCs.

Graças as revelações da Xerox, o modelo Lisa foi para as lojas equipado com um mouse, aparato que era novidade para a época.

Jobs sempre negou que o aparelho foi nomeado em homenagem a sua filha, Lisa Brennan-Jobs, mas a negação se tornava mais difícil quando o assunto era o fracasso comercial do produto.

Lançado em janeiro de 1983, o computador custava quase US$ 10 mil (mais de R$ 50 mil na cotação atual) e vendeu apenas 100 mil unidades antes de ser descontinuado.

A “menina dos olhos” de Steve Jobs havia falhado, mas um ano depois a Apple lançou um de seus produtos mais iconicos: o Macintosh, que também acompanhava mouse e teclado, mas que contava com um preço mais acessível do que o Lisa. Apesar de boas vendas, o Mac foi incapaz de evitar a saída de Jobs e Wozniack em 1985.

Sem seus fundadores, a companhia apostou em renovar — sem sucesso — seus produtos mais icônicos, como uma versão portátil do Macintosh, equipada com monitor LCD, além de modelos de baixo custo da maquina.

Outras apostas como o Apple Newton e a câmera Quicktake pareciam ser a tecnologia certa no momento errado, tornando os anos 1990 a “era das trevas” da empresa.

Tudo isso mudaria com a volta de Jobs em 1999. Produtos obsoletos foram eliminados e deram lugar a novidades que sobrevivem até hoje, como a Apple Store e o sistema operacional Mac OS X, mas a verdadeira revolução ainda estava para chegar.

Os anos 2000 podem ser considerados a era de ouro da maçã. Em um curto período, a empresa lançou o iPod (2001) e sua loja digital de músicas iTunes, produtos que ajudaram a preparar o terreno para sua maior revolução.

No dia 9 de janeiro de 2007, Jobs subiu ao palco do Moscone West, durante a conferência MacWorld, para fazer história. O empresário segurava em suas mãos um pequeno aparelho que prometia ser um computador, um iPod e um telefone.

“Todos nós nascemos com o melhor dispositivo de apontar — nossos dedos — e o iPhone os utiliza para criar a interface de usuário mais revolucionária desde o mouse”, afirmou.

Com tecnologias inovadoras que foram aperfeiçoadas por anos, como o touchscreen, o iPhone deu largada a uma nova era da comunicação. No mesmo ano, a companhia retirou “Computers” de seu nome, tornando-se apenas Apple Inc.

Jobs perdeu a batalha contra um câncer pancreático raro em outubro de 2011, mas viveu o suficiente para ver seu produto quebrar barreiras mundiais e mudar a maneira como acessamos a internet.

Em seu lançamento mais recente, o MacBook Neo – que acaba de chegar ao mercado brasileiro -, a Apple buscou oferecer um notebook de entrada com design e performance de notebook premium. Segundo Tim Cook, CEO da Apple, o Mac “teve sua melhor semana de lançamento da história” com o Neo e os novos MacBook’s Pro.

No comando da big tech desde agosto de 2011 – quando Jobs se afastou da empresa para cuidar da saúde -, Cook escreveu uma carta para os fãs da marca sobre os 50 anos da companhia.

“Do primeiro computador Apple ao Mac, do iPod ao iPhone, do iPad ao Apple Watch e os AirPods, além dos serviços que usamos todos os dias, como App Store, Apple Music, Apple Pay, iCloud e Apple TV, passamos cinco décadas repensando o que é possível e colocando ferramentas poderosas nas mãos das pessoas. A cada inovação, uma ideia sempre nos guiou: o mundo avança quando as pessoas pensam diferente”, disse, fazendo menção ao slogan famoso da maçã.

Cofundador de uma plataforma de educação e consultoria em inteligência artificial generativa (CR_IA), o brasileiro Paulo Aguiar, que já foi executivo de marketing de um banco digital, crava que a Apple é a mais influente das grandes marcas do mercado global em termos de criatividade, produto e design.

“Há décadas, ela dita as tendências visuais que seguimos, muitas vezes até sem saber. Além da evidente influência no design de interface, a comunicação vai na mesma linha, com dezenas de campanhas icônicas que vão desde o lançamento do ‘Think Different’ (filme de 1997 que celebrava, na voz de Steve Jobs, os inovadores, os ‘loucos’) até mesmo a vinheta da Apple TV: um vídeo de apenas cinco segundos que vai na contra mão das produções atuais, em que a marca, em vez de recorrer a recursos digitais ou à IA, fez tudo da forma mais complexa e artesanal possível, em formato de stop motion”, destaca.

É, de fato, uma companhia que faz questão de ser diferente.

Revolução na comunicação

A Apple é referência não apenas entre os especialistas em tecnologia. No universo da publicidade, a marca também fez história. Em 22 de janeiro de 1984, no intervalo do Super Bowl – a partida final da temporada de futebol americano -, estreou uma campanha tão emblemática que virou ícone cultural.

Chamado “1984”, o filme trazia uma narrativa distópica em um tempo em que a palavra “distopia” não era popular. A inspiração era a obra de George Orwell de mesmo nome.

Na direção do comercial estava Ridley Scott, que tinha lançado quase dois anos antes o cultuado “Blade Runner”. Nas primeiras cenas da campanha, há filas de pessoas marchando por túneis, monitorados por sistemas internos de TV. Em outro momento, indivíduos uniformizados em um tom azulado estão sentados acompanhando as palavras de um homem em uma tela imensa.

Ao mesmo tempo, uma mulher de cabelos curtos e platinados, em roupa de atleta, corre carregando um martelo enquanto é perseguida por policiais. Ela, então, arremesa o martelo e a tela explode. Em meio à fumaça, surge a mensagem: “Em 24 de janeiro, a Apple Computer vai apresentar o Macintosh. E você verá porque 1984 não precisa ser como 1984”.

Criada pela dupla Lee Clow e Steve Hayden, da agência Chiat Day, a campanha virou um divisor de águas. Colecionou prêmios e ajudou a vender o Macintosh sem ter mostrado nenhum pedacinho da máquina no filme. Reza a lenda que, em 100 dias, a Apple faturou US$ 150 milhões com a venda do computador. Outras grandes campanhas se seguiram, colocando a marca entre as mais criativas do mundo.