21/08/2002 - 7:00
Os homens à frente do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) precisaram tomar na semana passada a mais difícil das decisões para uma autoridade: a de voltar atrás. Dois meses e meio após obrigar todos os fundos de investimento a seguir um sistema conhecido como marcação a mercado, o governo divulgou nova regra, por meio de instrução da CVM, autorizando-os a deixar de lado a nova técnica em parte de sua carteira e a voltar a usar o método que aplicavam antes. Parece um detalhe técnico, mas é uma decisão política séria. É o coração de um pacote destinado a tirar a indústria de fundos de investimento de um turbilhão que chegou a abalar sua credibilidade. A marcação a mercado, embora seja tecnicamente irrepreensível, foi estopim involuntário de uma crise que começou no fim de maio e fez os cotistas sacarem R$ 43 bilhões que estavam aplicados nos fundos de investimento. Os homens do governo, capitaneados por Luís Fernando Figueiredo, do BC, e Luís Leonardo Cantidiano, da CVM, sentiram o pulso do mercado e optaram pelo recuo estratégico. Preferiram restaurar a confiança dos investidores a insistir em uma medida técnica que pode ser implantada mais tarde. ?Deu um alento para os fundos?, diz Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC e professor do Ibmec.
A decisão amadureceu depois de seguidas conversas do governo com representantes dos quatro maiores bancos do País ? dois estatais, Banco do Brasil e Caixa, e dois privados, Bradesco e Itaú. O que eles tinham a relatar deu a medida exata do problema. As oscilações que os fundos de renda fixa e DI passaram a sofrer de 31 de maio em diante, como conseqüência da marcação a mercado e da instabilidade causada pelas eleições, estavam destruindo a relação de confiança que sempre ligou os investidores comuns a esse tipo de fundo. Nesses FIFs, segundo a tradição, o dinheiro estava sempre seguro e a rentabilidade era previsível e constante. Mas, de junho em diante, eles se tornaram instáveis e passaram até a ter dias de rentabilidade no vermelho. Tanto risco foi insuportável para investidores que estavam habituados a ver os fundos como uma alternativa pouco mais rentável para as antigas cadernetas de poupança. A retirada maciça de dinheiro foi conseqüência inevitável. E parte dele foi acabar pousando na própria poupança.
O recuo estratégico da semana passada permite uma volta parcial à estabilidade de outrora nos fundos dos grandes bancos de varejo. ?O mercado tende a se dividir. Os bancos de rede deverão aproveitar a brecha para ajustar os fundos que vendem nas agências e reconquistar os clientes. Mas o restante deverá seguir com a marcação a mercado?, explica o gestor de fundos de um banco estrangeiro. O motivo para a divisão é que a marcação a mercado é mais justa, embora o comportamento dos fundos pareça menos previsível aos olhos de quem não tem formação técnica. Se as pessoas físicas se assustaram com a instabilidade, os grandes investidores gostaram da transparência que a regra traz. Pela marcação a mercado, o valor de cada cota de um fundo é calculado de acordo com o valor atualizado dos papéis em que ele aplica o dinheiro. Quando um cliente faz um saque, ele embolsa exatamente aquilo a que tem direito.
No método anterior, parcialmente ressuscitado, o fundo se limita a lançar o valor original de cada papel, acrescido dos juros acumulados dia após dia. Por isso, a rentabilidade parece ser quase constante. Se um fundo sofre um saque grande, acaba tendo de vender os títulos no mercado a um preço menor do que o declarado. O prejuízo fica para os investidores que saem por último. Esse ponto fraco no sistema foi o que levou BC e CVM a decidirem pela marcação a mercado, o método mais usado internacionalmente. Mas a entrada em vigor do novo sistema em um momento de tensão eleitoral e crise no mercado dos Estados Unidos acabou sendo uma escolha infeliz. ?A marcação é uma medida certa que chegou na hora errada. Por isso o seu fim foi bem recebido?, diz Mário Carvalho, diretor da WestLB Asset Management. O fim, porém, não foi radical. Apenas títulos que os fundos comprem a partir de agora poderão ser contados da forma antiga. E, mesmo assim, apenas os que vencem em menos de um ano.
O maior interessado em ver os fundos saudáveis e de bem com sua clientela é o próprio governo. São eles os maiores compradores dos títulos que o governo vende para levantar dinheiro no mercado e rolar sua dívida. Com os saques sem fim dos cotistas, os gestores dos fundos não só tinham parado de comprar mais títulos como ainda vendiam barato os que tinham em carteira. Isso desvalorizava mais os títulos e, para piorar, causava nova perda de rendimento nos fundos, que estavam obrigados a adotar a marcação de mercado. A crise crescia como uma bola-de-neve. A medida da semana passada interrompe a avalanche. ?O governo tirou de cena um dos pólos de incerteza do mercado?, diz Fernando Ganme, da Capital Administração de Recursos. Mas só isso não bastaria. Por isso, o BC vai também trocar US$ 11 bilhões dos títulos que estão nas mãos dos fundos por outros papéis. Os títulos novos terão prazo curto ? e assim não precisarão ser contabilizados pelo valor de mercado.