Em tempos de crise, o melhor é adiar investimentos e esperar a turbulência passar, certo? Errado. Com investimentos de R$ 750 milhões, a primeira fábrica de uma marca de automóveis britânica no Brasil, a da Jaguar Land Rover, foi inaugurada na terça-feira 14. Para receber a sua primeira unidade fora do Reino Unido, a empresa escolheu a cidade de Itatiaia (RJ), que se encontra em posição privilegiada a meio caminho entre as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, os dois principais mercados consumidores de veículos de luxo do Brasil. A opção pelo local parece acertada. A simbologia de ser a primeira marca britânica no País também é positiva. No entanto, o momento, aos olhos dos mais cautelosos, não poderia ser pior. O setor automotivo sofre com uma acentuada queda de vendas e com fábricas ociosas. No mercado de luxo, a situação está menos preocupante. Enquanto as vendas de automóveis caíram 27%, neste ano, entre janeiro e maio, as perdas do mercado premium foram menores, de 20%. Mas, quando a companhia anunciou o projeto, em 2013, ela vendia 10,7 mil carros por ano no Brasil. Em 2015, foram 9 mil. E, para este ano, o objetivo é manter a mesma quantia. Muito abaixo da capacidade de produção da unidade de Itatiaia, que poderá atingir 24 mil veículos por ano. Segundo o presidente da montadora para a América Latina, Frank Wittemann, a meta é ampliar a produção de acordo com o crescimento da demanda. No início, o ritmo vai ficar em torno de 15% do potencial, com apenas 12 carros produzidos por dia.

Porém, os olhos da companhia, que hoje faz parte do grupo indiano Tata, não estão no presente. “Uma fábrica se constrói para o longo prazo”, diz Ruben Barbosa, diretor de vendas da Jaguar Land Rover para a América Latina e Caribe. “Pensamos no potencial para se explorar quando o mercado se recuperar.” Num primeiro momento, a empresa não produzirá para a exportação, mas isso pode entrar no radar. Assim como não fabricará localmente carros da marca Jaguar, por enquanto. Os dois primeiros modelos serão da Land Rover – o Discovery Sport (R$ 212,5 mil) e o Evoque (R$ 224 mil) –, que têm uma boa aceitação no Brasil. A companhia, no entanto, não está sozinha em sua estratégia. Além da Jaguar, nos últimos dois anos, as alemãs e rivais no mercado de luxo BMW, Audi e Mercedes-Benz inauguraram fábricas locais, atraídas pelos incentivos do governo à produção local. “Quem está chegando ao Brasil espera colher resultados no médio e no longo prazos”, afirma Rene Martinez, analista do setor automotivo da consultoria EY. “Essas empresas entendem que o mercado é volátil e que não podem deixar de aproveitar a próxima decolagem.”

A questão é quando ela vai começar. “A expectativa é de que, entre o fim de 2019 e 2021, o mercado voltará ao desempenho de 2013”, diz Ivar Berntz, da consultoria Deloitte. Isso significa retornar a um patamar de 3,8 milhões de carros vendidos anualmente. Em 2015, foram 2,5 milhões. “O Brasil tem capacidade de atingir a marca de 4 milhões de carros por ano em pouco tempo”, diz Barbosa. Para o nicho premium, há um motivo adicional para otimismo. Ele representa apenas 2,4% das vendas no Brasil. No ano passado, foram 65 mil unidades vendidas pela Jaguar Land Rover, pelas três marcas alemãs e por outras marcas menores. Em mercados maduros, como os do EUA, da Europa Ocidental e mesmo da Rússia, esse nicho já representa 10% do setor. É com isso que a Jaguar Land Rover conta para ter sucesso no seu mais ousado salto realizado no Brasil.