A disputa entre Ser Educacional e Kroton pelo controle da Estácio, que se iniciou formalmente no dia 2 de junho, ganhou contornos dramáticos na sexta-feira, 1º de julho. Poucos minutos antes da abertura dos negócios, a Kroton divulgou um fato relevante informando o mercado que sua proposta havia sido aceita pelo Conselho de Administração da Estácio.

A Kroton informou que a combinação das empresas faria a Kroton assumir todas as ações da Estácio resultaria e uma conversão à taxa de 1,281 ação da Kroton para cada ação da Estácio, mais um dividendo extraordinário de R$ 0,55 por ação, totalizando R$ 170 milhões.

Tudo certo, exceto que a concorrência não gostou nadinha. Os executivos da Ser Educacional foram surpreendidos na manhã de sexta-feira pela aceitação da nova proposta da Kroton e resolveram revidar.

Medidas Legais

De acordo com fontes com conhecimento das negociações, no início da tarde da sexta-feira, a equipe jurídica da Ser Educacional e os advogados externos do tradicional escritório Pinheiro Neto foram convocados por um enfurecido Diniz para garantir que a fusão entre as concorrentes fosse reprovada sem chance de recuperação. “Vamos tomar todas as medidas legais para que essa operação não se concretize e não desequilibre a dinâmica concorrencial do setor”, disse um executivo a par das tratativas.

Até o fim da tarde, a Ser Educacional e os especialistas do Pinheiro Neto deverão bater o martelo na estratégia legal e publicar um fato relevante anunciando sua decisão. O mais provável, segundo fontes do mercado, é que eles anunciem sua retirada formal da negociação e denunciem práticas anti-concorrenciais.

Isso poderá fazer gorar um negócio que garantiria grandes sinergias para a Kroton. Na nova proposta, a relação de troca, caso se concretizasse no dia primeiro de julho, e usando a média de cotação de trinta pregões anteriores à oferta tornar-se pública, equivaleria a R$ 12,79 por ação da Estácio, já contabilizando o montante do dividendo extraordinário.

Há, porém, um detalhe importante nessa tramitação. O casamento foi celebrado, mas não consumado. Apesar de a Estácio ter divulgado, em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que concorda com a proposta financeira da Kroton, isso não significa que ela a aceitou. Um assessor da Estácio informou que há uma reunião da diretoria agendada para o dia 8 de julho, na qual as propostas da Kroton e da Ser Educacional serão formalmente avaliadas.

Ineditismo

A briga pela Estácio é inédita em vários sentidos. Trata-se da maior disputa que já ocorreu no setor de educação privada no País, que envolve ainda um terceiro player: o maior acionista do grupo educacional fluminense, Chaim Zaher, que detém 14% das ações, comanda a Estácio e já afirmou que não vai assistir passivamente ao movimento dos concorrentes.

Zaher anunciou na quarta-feira 29 que pretende fazer uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para comprar 36% do capital e, assim, assumir o controle da Estácio Participações. Pela primeira vez na história do capitalismo brasileiro, duas empresas listadas em bolsa disputam uma terceira também de capital aberto. Com isso os papéis das três empresas dispararam.

O negócio começou por causa de uma pechincha. De janeiro a maio deste ano, as ações da Estácio acumulavam queda de 19% e eram negociadas com grandes descontos em relação aos seus pares – Ser Educacional acumulava alta de 50% e Kroton apresentava uma valorização de 18%. Parte disso deveu-se aos resultados do primeiro trimestre, que vieramabaixo do esperado pelo mercado.

De acordo com os analistas da BB Investimentos, apesar na alta de 11,1% na captação de novos alunos, o tíquete médio cresceu muito abaixo da inflação (2,3%, na comparação com o primeiro trimestre de 2015), por conta da política de descontos nas mensalidades. Somado à alta de 68% nas despesas comerciais, que foram catapultados por despesas de marketing (a Estácio é uma das patrocinadoras da Olimpíada), houve redução dos resultados operacionais, gerando um recuo de 2,2 pontos percentuais na margem Ebitda. O Ebitda da companhia de janeiro a março foi de R$ 197,5 milhões. Com a desvalorização das ações, a empresa passou a ser alvo da concorrência.

Ao final de maio, em relatório enviado a investidores da Coinvalores, os analistas avaliavam que o preço alvo do papel era de R$ 17,20. A ação da Estácio, que encerrou maio cotada a R$ 10,86, fechou junho a R$ 16,96 – alta de 56% no mês. Houve quem arriscou e ganhou. O gestor americano BlackRock, por exemplo, aproveitou a desvalorização dasações para elevar sua fatia na Estácio a 5%, em 28 de abril. Já a Lazard Asset Managment optou por reduzir sua participação no grupo fluminense de educação para 4,59% na primeira semana de maio e deixou de ganhar dinheiro. Mas enquanto a situação da Estácio permanece indefinida, qual seria a melhor estratégia para o investidor que já tem ações das três empresas ou que está pensando em comprar?

Cautela

Para Daniel Liberato e Felipe Silveira, analistas da corretoraCoinvalores, o momento é de cautela. “O momento não é de entrada porque não há um grande upside para o investidor”, alertam os analistas. Segundo eles, no curto prazo, a fusão pode diluir as participações dos acionistas da Kroton ou da Ser Educacional na nova entidade criada ou o preço a ser pago na operação pode pressionar o valor dos papéis.

Já Bruno Giardino, analista de investimento do Santander, acredita que o mercado já precificou o potencial de sinergias de fusão entre Estácio e Kroton, dada como a mais provável de acontecer para o banco. “O investidor precisa olhar o potencial de criação de valor da combinação dos negócios, e muito disso já foi precificado.”

Para a Coinvalores, a recomendação de compra só acontece quando há perspectiva de ganhos superiores a 15%. Por isso, o status atual é de manutenção dos papéis da Estácio. Já em relação aos investidores que têm ações da Ser Educacional e da Kroton, a corretora recomenda o acompanhamento do desenrolar das propostas, porque existe o risco de o custo da transação reduzir a margem de ganhos dos acionistas.

No entanto, outros analistas ouvidos pela DINHEIRO recomendam a venda das ações da Ser e da Kroton porque não há uma perspectiva de que os valores das ações continuem subindo por muito mais tempo e agora é uma boa oportunidade para embolsar os ganhos. “Para que essa curva de preço continue em ascensão é necessário que haja boas notícias em um curto prazo”, pondera Giardino, do Santander.“Caso nenhuma das fusões se concretize”, afirma ele, “a tendência é que haja a destruição do valor criado, ou seja, as ações

Procurada, a Estácio informou que só vai se pronunciar sobre o assunto a partir da segunda-feira 4.