Servidores de duas gerências do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgaram hoje uma carta aberta em que se declaram vítimas de “retaliação e assédio moral” em função de críticas expressadas sobre atos da gestão de Marcio Pochmann na presidência do órgão.

Os técnicos das gerências de Sistematização de Conteúdos Informacionais (GECOI) e de Editoração (GEDI) relatam terem sido transferidos de um prédio da região do Maracanã, na zona norte do Rio de Janeiro, para um antigo parque gráfico do IBGE em Parada de Lucas, na Avenida Brasil, vizinho a comunidades que formam o Complexo de Israel.

Os trabalhadores creem que a mudança tenha sido uma retaliação a denúncias públicas feitas pelos técnicos, como a divulgação em janeiro de uma nota de repúdio pela decisão da direção de manter um prefácio assinado pelo governo do Estado de Pernambuco – que poderia caracterizar “propaganda política” e “campanha eleitoral” – em uma publicação oficial do instituto, contrariando parecer da área técnica.

As gerências argumentam que atuam no atual edifício desde a década de 1990, responsáveis por atividades de documentação e editoração, com procedimentos e tratativas com demais unidades organizacionais demandantes de forma estritamente digital.

“Sua mudança para o Complexo de Parada de Lucas, além de desprovida de embasamento lógico ou técnico, não guarda nenhum compromisso com a realidade do trabalho exercido por essas unidades”, dizem os servidores, em carta aberta.

Os trabalhadores defendem que a mudança das duas gerências para Parada de Lucas “constitui retaliação e assédio moral aos seus servidores”, em razão de posicionamentos técnicos que contrariavam decisões da atual gestão Pochmann.

Os técnicos relembram que, em janeiro de 2025, contestaram um comunicado da Presidência do IBGE que classificava como “desinformação e mentiras as críticas tecidas pelo corpo técnico da Casa sobre a criação da Fundação IBGE+”. A criação por Pochmann da fundação de direito privado acabou suspensa temporariamente, após intensa polêmica.

“Ainda em janeiro de 2025, alertamos sobre os riscos decorrentes da quebra do princípio da impessoalidade e da perda de autonomia técnica no trabalho, em virtude da inclusão de um prefácio com conotação política no periódico Brasil em Números 2024, apesar de as considerações técnicas expressadas por ambas as Gerências serem absolutamente contrárias a tal procedimento”, acrescentou a carta.

Os servidores se referem à 32ª edição do periódico “Brasil em Números 2024”, divulgado em 28 de janeiro, no Recife, em Pernambuco. Um dos prefácios trazia o nome de Raquel Lyra, à época filiada ao PSDB/PE, governadora de Pernambuco, mencionando ações e prioridades de seu governo no atendimento à população local. O texto incluiu citações a diferentes programas de sua gestão à frente do governo do Estado.

“Em fevereiro de 2025, refutamos uma nota divulgada na Câmara dos Deputados em que fomos rotulados como pessoas que utilizam ataques e acusações infundadas contra o Presidente do IBGE em razão de interesses que têm sido contrariados por mudanças promovidas pela nova administração”, mencionou também a nova carta.

A executiva nacional do sindicato de servidores do IBGE, a Assibge-SN, informa que está acompanhando a nova denúncia dos trabalhadores. O núcleo regional do sindicato fará uma assembleia na semana que vem para tratar do assunto.

“Recebemos a denúncia hoje. A princípio parece plausível, pois de fato são gerências que se manifestaram contra decisões da direção, e a transferência de local de trabalho parece desprovida de qualquer justificativa razoável”, declarou Bruno Perez, diretor da executiva nacional da Assibge-SN.

O texto divulgado nesta quinta-feira tem a assinatura de 11 servidores.

“Considerando o exposto, reiteramos o entendimento de que a GECOI e a GEDI estão sob represália em virtude de nossos posicionamentos técnicos. Tal mudança, além de não objetivar o aprimoramento dos fluxos de trabalho, arrisca expor os servidores dessas Gerências a situações cotidianas de inquestionável periculosidade, o que certamente afetará variados fatores de desempenho profissional e institucional, em claro conflito com o Princípio da Supremacia do Interesse Público, segundo o qual a Administração Pública não deve se curvar a interesses privados, como os demonstrados na inflexibilidade irracionalmente exercida pela Coordenação-Geral do CDDI (Centro de Documentação e Disseminação de Informações)”, encerram os trabalhadores, no texto.

Procurada pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), a direção do IBGE não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação deste texto.