31/10/2007 - 8:00
As empresas têm um pote de ouro escondido nos departamentos de recursos humanos. Para garantir que esse capital entre nos cofres, não é preciso correr até o final do arco-íris. Basta olhar para a folha de pagamento. Ela pode garantir um bom dinheiro e assegurar vantagens para os funcionários ao ser ?vendida? para as instituições financeiras. Os bancos desembolsam milhões para ter a exclusividade nos pagamentos de salários. Essa prática está a todo o vapor entre as prefeituras e os Estados. Somente o Itaú gastou R$ 510 milhões para ter a folha da Prefeitura de São Paulo (leia quadro). As entidades privadas também começaram a explorar esse filão. E seu funcionário, quanto vale?
O tamanho da folha de pagamento é que vai determinar o montante que a companhia receberá. Um exemplo é a rede de cosméticos O Boticário. Com 1.800 colaboradores, a empresa vendeu a administração da folha para o HSBC e recebeu R$ 4,2 milhões, ou seja, R$ 2,3 mil por funcionário. O Grupo Votorantim, que tem 15,5 vezes mais pessoas que O Boticário, recebeu R$ 50 milhões do Banco Real.
As empresas que delegam a administração da folha de pagamento podem colocar o funcionário em condições privilegiadas de tratamento com uma instituição financeira. Normalmente há ofertas de serviços básicos com custos mais baratos, acesso a produtos financeiros com desconto e juros mais atrativos. Esses diferenciais servem como aproximação no jogo de sedução entre o banco e esse potencial cliente. ?Quando se entra nessa disputa, é preciso mostrar as vantagens da instituição?, pontua José Paiva Ferreira, vice-presidente de marketing e negócios do Santander.
Para as empresas, o montante recebido é de livre aplicação e os valores não são desprezíveis. O HSBC investiu R$ 5 milhões na administração do pagamento de 3,8 mil funcionários da Tigre. O banco colocou a conquista de novas folhas como parte estratégica no seu crescimento orgânico. Tanto que os Postos de Atendimento Bancário (PAB), que são instalados nas empresas, já são mais numerosos do que as agências de rua: 1.013 contra 932. O Santander não fica atrás. Conquistou a TAM e a rede de ensino Unip. Mas é no setor público que o Santander tem investido pesado. De junho até setembro, foram ao menos sete novas prefeituras conquistadas através de licitações. Entre elas, a pequena cidade de Urupês, no interior de São Paulo, com 12 mil habitantes e 378 funcionários, e a capital paranense Curitiba, com 40 mil servidores que valeram R$ 140,5 milhões. ?É um valor que retorna para a p o p u l a ç ã o através de investimentos sociais?, afirmou à DINHEIRO Luiz Eduardo Sebastiani, secretário de Finanças de Curitiba.
A aprovação da portabilidade da conta-salário pelo Conselho Monetário Nacional, em setembro do ano passado, não diminuiu o apetite das instituições financeiras. Funcionários cujas empresas ainda não tinham vendido as folhas estão livres para receber seus salários no banco que escolherem. No setor público, a portabilidade da conta-salário ocorrerá apenas em 2011. ?Somos favoráveis à liberdade de escolha para todos?, diz Ferreira, do Santander. Enquanto isso não acontece, a guerra pelas folhas de pagamento continua acirrada.