20/03/2002 - 7:00
As sensuais bailarinas da boate Treasures, um refúgio masculino de Houston, no Estado americano do Texas, dificilmente serão chamadas a depor. Quem der atenção ao que elas têm a dizer (e não apenas ao detalhes anatômicos que costumam exibir) pode, no entanto, mergulhar-se na intimidade das práticas pouco usuais que levaram a gigante da energia Enron à bancarrota ? e que estão sendo alvo de uma série de inquéritos nos Estados Unidos. É pouco provável que elas saibam do que rolava nas orgias contábeis que seduziram investidores a comprar ações da companhia enquanto os próprios comandantes da empresa já sabiam que seu vigor estava em baixa. Mas do convívio com os enronites ? é como as moças se referem, com carinho e nostalgia, aos arrojados e endinheirados executivos da empresa ?, podem fazer um relato no mínimo picante sobre a cultura que levou a Enron ao apogeu e à desmoralização pública. Dentro e fora dos escritórios, conclui-se, obscenidade e promiscuidade eram regra e o pudor, exceção.
Ainda brilha nos olhos das strippers da Treasures o tom platina reluzente dos cartões de crédito corporativos dos enronites. Os plásticos financiaram farras inesquecíveis (incrivelmente rotineiras) na sala vip da casa, uma ala reservada no andar superior. Garrafas de champanhe Cristal (US$ 575 a unidade) espocavam amiúde, muitas vezes no sagrado momento da pausa para almoço dos profissionais. No ?refeitório? dos executivos, meninas serviam prazeres e recebiam, em troca, presentes de até US$ 1 mil. E ouviam seus cavalheiros falarem de episódios de disputas, intrigas, traições, assédio, paixões nos mais diversos escalões da companhia. Imaginavam uma Sodoma do mundo corporativo ? e talvez não estivessem tão enganadas. O clima de vale-tudo permeava a Enron, emanado do topo da hierarquia. Mais especificamente, de Jeffrey Skilling, dono da cadeira de presidente mundial quando a companhia virou sinônimo de fraude nos balanços.
Para chegar ao poder, Skilling travou uma guerra suja contra Rebecca Mark, ex-presidente da Enron International, subsidiária que cuidava da expansão do grupo fora das fronteiras americanas. Com visões opostas sobre os rumos da companhia, Skilling e Rebecca convergiam nos métodos de conquistas de aliados e espionagem de inimigos internos. Ela era defensora de um modelo de negócios baseado em gastos bilionários para a construção de uma grande estrutura de geração e transmissão de energia. Ele dizia que a fórmula era ultrapassada e que, para fazer dinheiro, não precisava erguer uma única torre ? apenas comprar e revender megawatts, numa versão sofisticada do que fazem os atravessadores do mercado de hortaliças. Durante quase uma década, os dois foram rivais nada cordiais, capazes de qualquer gesto para ofuscar um ao outro diante de Ken Lay, o fundador da Enron.
As línguas mais ferinas da empresa dizem que ódio mútuo é fruto de um romance mal-acabado, o que é negado veementemente por ambos. Não admitem, tampouco, ter plantado espiões de sua confiança no campo do adversário. Skilling orgulhava-se de implantar o processo de enronização no quadro de pessoal da companhia. Tradução: impôs um regime de dedicação exclusiva à empresa, que consistia em abrir mão da vida fora dela em troca de altos salários e dos prazeres corporativos. Aderir significava também dar adeus à privacidade. Ex-agentes da CIA monitoravam cada centímetro quadrado da empresa, invadiam caixas de correio eletrônico quando desejavam e tinham poder para confiscar computadores a qualquer momento.
O grande irmão Skilling exigia fidelidade. Em contrapartida, fechava os olhos para excessos como os praticados pelos enronites na boate Treasures ou para os freqüentes casos protagonizados por colegas de escritório. Ele mesmo deu o exemplo: divorciou-se da mulher para unir-se a uma secretária, a quem presenteou com um cargo com incríveis rendimentos de US$ 600 mil anuais. Lou Pai, executivo de alta cotação interna, abandonou o casamento para acolher uma das bailarinas da filial noturna da Enron. Nenhum caso provocou mais falatório que o affair envolvendo Ken Rice e Amanda Martin, ambos do pelotão de elite da empresa. Cenas tórridas de paixão explícita foram acompanhadas ao vivo pelos colegas por meio das janelas da sala de Amanda. Bonita e sensual, ela funcionava como agente dupla na disputa entre Skilling e a rival Rebecca. Amanda era o braço direito da superexecutiva nos grandes contratos internacionais e mantinha relações de amizade com o chefão da companhia. Tinha prestígio em ambas as trincheiras, supostamente trocado por segredos colhidos em um lado e entregues do outro.
Rebecca deixou a companhia em agosto de 2000, sufocada pela pressão de Skilling. Perdeu a batalha, mas pode ter ganho a guerra. Na época, vendeu suas ações da Enron ainda na alta, arrecadando US$ 53 milhões e hoje está longe das investigações sobre o escândalo na companhia. Não foi, no entanto, esquecida. Seu estilo voraz e espetaculoso deixou marcas profundas na cultura corporativa. Rebecca também cultivou romances com colegas e praticou como ninguém o estilo Enron de ostentação. Era destaque certo nas festas da companhia, sendo flagrada ora no colo de um papai-noel, ora montada sobre um elefante ? contratado para animar uma festa em comemoração a um grande negócio fechado na Índia. Eram tempos de fartura, a Enron era o paradigma de um novo modelo de negócios e mesmo o fundador Ken Lay, mais recatado, se deixava contagiar e era fotografado com um turbante à Carmen Miranda. A farra acabou.