28/07/2001 - 7:00

Na segunda-feira passada o Bradesco convocou os analistas de mercado para anunciar seu desempenho no primeiro semestre. Surpreendeu-os com um lucro de R$ 1,042 bilhão, equivalente ao resultado anual do National Bank of Canada, que tem quase o dobro do seu tamanho. ?Conseguimos criar um mix de rentabilidade de várias fontes diferentes, e estamos abrindo mais de uma agência por semana?, resumiu a DINHEIRO o presidente do banco, Marcio Cypriano. No dia seguinte, foi a vez do Itaú assombrar os especialistas. Revelou que havia ganho R$ 1,45 bilhão, o correspondente ao que embolsa no mesmo período o HypoVereinsbank, segundo maior banco da Alemanha. ?Parte de nosso lucro foi excepcional, mas cerca de R$ 1 bilhão é recorrente, pode ser tomado como desempenho normal
do banco?, afirmou à DINHEIRO o presidente Roberto Setúbal.
É o terceiro ano consecutivo em que o ritual dos números se
repete com o mesmo roteiro ? e com cifras cada vez maiores.
Nas primeiras edições o mercado se perguntava se novidades
como essas iriam se repetir, ou se não passavam de uma feliz coincidência. Agora, não há mais dúvida. Os bancos brasileiros subiram um degrau na escala do capitalismo global. São muito maiores do que eram no início da década. E, diferente do que costuma acontecer, a engorda os tornou mais eficientes. ?A rentabilidade mediana passou de 16,9% para 21,8% em um ano. Acho difícil que haja outro sistema no mundo com essa rentabilidade?, diz Erivelto Rodrigues, da Austin Asis consultoria.
Quando se chega à casa dos bilhões, os números parecem tão distantes da realidade que fica difícil entender o que eles significam. Por isso, vale fazer algumas comparações para entender a posição dos bancos brasileiros no mapa do dinheiro. O resultado semestral do Itaú é maior que os lucros anuais da Nike ou da holding LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy, o maior grupo de produtos de luxo do planeta). Vale também por três anos de lucratividade do Perez Companc, o maior grupo industrial argentino. Ou seja, são números assombrosos qualquer que seja a escala utilizada para medi-los. E, se os líderes de mercado saltaram de tamanho, aqueles que ficam atrás no ranking também mostraram serviço, embora em proporções menores. O Banespa, recém-privatizado e que acaba de passar por um plano de demissão voluntária, exibiu um lucro de R$ 235 milhões, mais do que o previsto. ?Ganhamos 300 mil novos correntistas?, festeja o vice-presidente Pedro Coutinho.
De onde veio tanto dinheiro? No geral, a alta do dólar foi um empurrão ladeira acima. Bradesco, Itaú e Mercantil, os primeiros a divulgar seus números, haviam ganho R$ 372 milhões com títulos cambiais no primeiro semestre do ano passado. Desta vez, embolsaram R$ 1,13 bilhão. É uma diferença de 205%. Quando se analisa o total dos onze bancos que já divulgaram seus relatórios, o chamado lucro de tesouraria ? obtido com aplicação em títulos públicos ? também foi gordo. Mas, no caso dos grandes, fica claro que também houve um enorme aumento de eficiência. Eles emprestaram mais, principalmente a pessoas físicas, e o fizeram vacinados contra a inadimplência. ?Desde 1999 eles investiram milhões em sistemas de controle de crédito e risco?, explica Rafael Guedes, diretor da Fitch Rating do Brasil. ?Agora estão mais preparados para emprestar dinheiro.? A aposta faz sentido. O crédito pessoal é o tipo de empréstimo mais rentável para as instituições.
No caso do Itaú, R$ 233 milhões do lucro se devem a uma operação excepcional, a venda de sua rede de comunicações interna para a Telefonica. A alta do dólar também fez com que o banco, com US$ 2 bilhões em ativos no exterior, tivesse um ganho contábil muito grande. Segundo a instituição, são cerca de R$ 184 milhões acima do normal. O bilhão que resta, porém, pode ser atribuído a uma administração bem feita. A casa aumentou a receita de serviços, as operações de cartão de crédito, e trouxe para sua carteira de fundos R$ 10 bilhões a mais do que possuía no início do ano passado. O presidente, Roberto Setúbal, acha que é possível manter o ritmo. ?Queremos crescer dentro da base de clientes, aumentando o volume de serviços oferecidos a cada um?, explica. Ele calcula que pode gerar mais negócios com os dois bancos que adquiriu recentemente, o Banestado e o Bemge. E que, em algumas áreas, o Itaú ainda precisa investir para atingir o tamanho que merece ? especialmente em seguros e previdência. ?Até o final do ano queremos ter 80 mil clientes nas agências Personalité. Eles eram 40 mil no início do ano, e hoje são 60 mil?, contabiliza, referindo-se ao setor criado para atender clientes de classe média alta.
No Bradesco, o lucro surpreendeu os analistas principalmente porque o banco não foi tão beneficiado pela alta do dólar quanto a concorrência. Seus números indicam simplesmente uma melhoria em todos os indicadores da atividade bancária. A seguradora, que sempre foi forte, participou com R$ 324 milhões, mas 60% do resultado final vieram da chamada ?intermediação financeira?, que inclui operações de crédito e aplicações em títulos públicos. A receita com tarifas subiu pouco mais de 10%, empurrada pela incorporação de 400 mil novos correntistas. ?Estamos abrindo mais de uma agência por semana. E fizemos um forte investimento em tecnologia, para ter ganhos de eficiência mesmo com o aumento na base de clientes?, explica o presidente, Marcio Cypriano.
O banco conseguiu aprofundar seu relacionamento com cada cliente, aumentando a média de produtos vendidos por pessoa de 4, no início do ano, para 4,7. Enquanto os correntistas e os serviços a eles oferecidos cresciam exponencialmente, houve controle feroz de custos. As despesas administrativas caíram R$ 23 milhões, depois de um programa de renegociação de contratos com fornecedores. Nos corredores da instituição, porém, mais do que
o lucro, o que se festejava era outro número mágico. O Bradesco
foi o primeiro banco privado a superar a marca de R$ 100 bilhões
em ativos ? tem exatos R$ 101,86 bilhões.
O banco de Osasco é o exemplo mais visível de como os competidores do varejo estão ganhando escala. Isso pode ser comprovado por um indicador mais político do que técnico. Depois
de anos de vice-campeonato, os bancos privados finalmente destronaram o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal do primeiro lugar em várias categorias. O Bradesco tomou do BB,
de uma só tacada, a liderança na carteira de crédito (com R$ 43 bilhões emprestados), na administração de fundos e na venda
de títulos de capitalização. O grupo de Osasco já faz metade das cobranças financeiras no País e responde por um em cada quatro reais arrecadados de CPMF. O Itaú, embora significativamente
menor em ativos, é o líder em custódia e aparece nas bolsas
como o grupo financeiro de maior valor de mercado na
América Latina ? R$ 22,15 bilhões.
Os lucros fenomenais também sinalizam outro fenômeno: o sistema bancário brasileiro está se concentrando violentamente. No início do Plano Real, Bradesco, Itaú e Unibanco acumulavam juntos pouco mais de R$ 53 bilhões em ativos. Esse número mais do que quadruplicou. Os balanços mais recentes mostram que a trinca tem em caixa, hoje, R$ 230 bilhões. No primeiro semestre de 1995 esse grupo havia lucrado R$ 522 milhões. Hoje, essa é mais ou menos a cifra que o mercado espera para o balanço do Unibanco, o menor dos três, a ser divulgado na próxima semana. ?A concentração é um fenômeno mundial. No Japão há bancos que administram mais de US$ 1 trilhão?, explica Alberto Matias, da ABM Consulting. ?A diferença é que aqui esse processo está acontecendo muito rapidamente?. O País possui 207 bancos, mas os dez maiores acumulam três quartos dos depósitos. O consultor Erivelto Rodrigues, da Austin Asis, calcula que em menos de dois anos eles terão 85%.