12/03/2003 - 7:00
São apenas três letras ? GSM ?, mas fortes o bastante para sustentar uma aposta de avanço mundial no setor de telefonia celular de uma multinacional com 157 anos de existência. Às vésperas de anunciar investimento de US$ 70 milhões para duplicar a capacidade produtiva de sua fábrica de celulares com tecnologia Global System for Mobile, em Manaus, a Siemens fundeou um navio na Cote d?Azur, em Cannes, para hospedar clientes vips, garantiu na costa um espaço de 100 metros quadrados no 5º Congresso Mundial de Telefonia Celular GSM, no mês passado, e desligou seus ramais das incertezas. Seu negócio é crescer na Europa e na América Latina, e o Brasil está no centro dessa meta. A partir da reunião mundial de Cannes, os principais executivos da companhia dispararam a ordem de avançar sobre um mercado de atuais 850 milhões de usuários, a tempo de aproveitar o espaço aberto pelos americanos que, com sua tecnologia TDMA de 150 milhões de usuários, parecem não saber como crescer. ?A palavra de ordem dentro da empresa, no mundo todo, é conquistar o segundo lugar entre os fabricantes de celulares com tecnologia GSM?, diz Paulo Stark, diretor de Telefonia Celular da Siemens Brasil. ?Queremos atingir esse objetivo até o final deste ano?. Trocando em miúdos, a tarefa é se destacar no bolo das grandes fabricantes, no qual a maior fatia pertence à finlandesa Nokia, com mais de 30% do mercado. Atrás, com entre 8% e 11%, embolam-se a americana Motorola, a sueca Ericsson, a coreana Samsung e a própria Siemens.
O Brasil é uma das principais plataformas de lançamento para o sucesso deste plano. Em 2002, a Siemens fabricou e vendeu no País nada menos que um milhão de aparelhos GSM, cada um deles ao preço final mínimo equivalente a US$ 90. Esse desempenho só foi possível graças à entrada no mercado nacional de telefonia das operadoras TIM e Oi, que conquistaram cerca de 1,5 milhão de clientes desde junho do ano passado, muitas vezes a partir de vendas de celulares ao público com preços subsidiados. ?Todas as nossas informações dão conta de que o brasileiro está aderindo com grande rapidez à tecnologia GSM, que continuará em expansão?, calcula Stark. ?Com a ampliação da fábrica de Manaus, teremos condições de manter nossos 50% do mercado nacional e exportar para todas as regiões do mundo o excedente.?
O campo, de fato, parece ser extenso. Pelo menos mais duas grandes operadoras estão chegando ao mercado brasileiro de telefonia celular com tecnologia GSM. A Brasil Telecom tem planos de estrear em julho nos dez Estados de sua jurisdição. A mexicana Telecom Americas, por seu lado, já abriu conversas com a própria Siemens a respeito da possibilidade de comprar redes e aparelhos para migrar sua rede no Brasil na mesma direção. Enquanto os EUA vivem um impasse tecnológico, sem alternativas de crescimento, o congresso de GSM de Cannes, praticamente só com europeus, reuniu 600 expositores. Explica-se: enquanto é preciso pagar royalties à americana Alcom para desenvolver a tecnologia TDMA, a GSM é livre.
Com sede mundial em Munique, na Alemanha, a Siemens tem adotado, historicamente, uma estratégia de crescimento que privilegia a economia e a segurança. A empresa é velha conhecida dos brasileiros. Sua chegada ao País, em 1867, se deu a partir de um convite do então imperador D. Pedro II para a instalação de uma linha telegráfica entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre. Quase 150 anos depois, a fábrica de celulares em Manaus foi inaugurada, em fevereiro do ano passado, às vésperas da entrada em operação das empresas de telefonia que usam a tecnologia GSM. Se esse modelo não tivesse sido adotado no País, a fábrica simplesmente não existiria. Em todo o mundo, a companhia só trabalha em torno de tecnologias abertas, recusando-se, onde quer que seja, a pagar royalties. Com este tipo de política, a Siemens nunca realizou demissões em larga escala, como algumas de suas concorrentes, e mantém, atualmente, 426 mil empregados em todo o mundo, 7 mil dos quais no Brasil. Em 2002, seu faturamento mundial foi de 84 bilhões de euros, com lucro de 3,5 bilhões de euros no período.
Diversificação. No Brasil, em 2002 a empresa faturou R$ 4,1 bilhões. Outra vez, em razão de um derivado da segurança ? a diversificação. A companhia tem nada menos que 19 plantas industriais no País, voltadas para cinco setores da economia, afora o de Telecomunicações ? Energia, Medicina, Iluminação, Transportes e Infra-estrutura Industrial. Orgulha-se de ter fornecido todos os equipamentos para a fábrica de carros Audi, em São José dos Pinhais, no Paraná, considerada uma das mais automatizadas do País. Igualmente equipa com aparelhos de medicina de imagem alguns dos melhores hospitais brasileiros. Suas turbinas de energia equipam Itaipu e, a partir do Brasil, foram exportadas para a maior hidrelétrica em construção no planeta, a de Três Gargantas, na China. Agora, é o mundo da moda que está no alvo da Siemens. Sob a marca Xelibri, a companhia aposta em designs arrojados para vender mais celulares. A primeira coleção está em fase de lançamento na Europa. Os novos modelos devem chegar por aqui até o final do ano. ?A tecnologia tem limites?, diz Rudi Lamprecht, do board de telefonia celular da Siemens. ?A vaidade, não.? Essa é a aposta.