28/09/2001 - 7:00
A Suíça, sempre poupada da rota internacional dos atentados terroristas, desta vez saiu chamuscada com o golpe que derrubou o World Trade Center. O impacto fez tremer as fundações de dois dos ícones helvéticos: a Swissair, que voava pelo mundo com a bandeira vermelha e branca na cauda de seus aviões, e o rigidíssimo sigilo bancário. A companhia de transporte aéreo caiu primeiro. Ficou sem caixa para tirar os aviões do chão e, quebrada, obrigou o governo a montar em seu benefício um empréstimo de emergência de US$ 278 milhões. O sistema financeiro, mais forte, resiste de pé, mas virou alvo de pressão internacional. Em nome do combate ao terrorismo, os Estados Unidos e a Inglaterra aumentaram muito o tom das cobranças sobre os suíços para que eles reduzam os mecanismos de sigilo e facilitem o rastreamento do dinheiro suspeito.
Bancos e o governo do país alpino resistem. Para eles, a nobre causa da luta contra os terroristas pode estar servindo de
invólucro para empurrar goela abaixo dos suíços um maior
controle fiscal sobre as contas abertas no país ? uma antiga e sempre rechaçada demanda de americanos e ingleses. Os EUA estudam há um ano um projeto para obrigar bancos em qualquer lugar do mundo a recolher impostos de investidores americanos que invistam nos Estados Unidos através de instituições estrangeiras. Outro projeto, esse da União Européia, propõe que os bancos retenham impostos diretamente da conta dos clientes ? o que exige que todos sejam identificados.
O golpe mais dolorido foi dado pelo chanceler britânico Gordon Brown. Ele disse que o sigilo suíço servia de obstáculo aos esforços para localizar dinheiro de suspeitos de terrorismo. ?A Suíça e outros países que tradicionalmente valorizam o sigilo devem aceitar que precisam ter instituições preparadas para relatar transações suspeitas?, disparou. A reação suíça foi de indignação. Um porta-voz do Ministério das Finanças disse que o país ?rejeita que o terrorismo seja protegido pelo sigilo?. O ministro Kaspar Villiger argumentou que o país não está preparado para permitir a ação de investigadores estrangeiros, e sustentou que os bancos helvéticos já têm regras rígidas de monitoramento de sua clientela. A população, aparentemente, sustenta essa posição.
Resistência feroz. Projetos para derrubar o sigilo financeiro foram derrotados duas vezes, uma em plebiscito e outra no parlamento. Pesquisa da Associação dos Banqueiros Suíços indica que 72%
da população é contra o fim do segredo, ?mesmo que os Estados Unidos pressionem?.
A quase bancarrota da Swissair jogou estilhaços também sobre os bancos do país. Os dois maiores, UBS e Crédit Suisse, tinham empréstimos à companhia em sua carteira e tiveram que agir rápido para diminuir os efeitos da crise. Em troca de parte da dívida, assumiram a parte da empresa na Crossair, maior companhia de aviação regional da Europa ? e lucrativa. O dinheiro que pagaram pelas ações entrou na Swissair para ajudar na sobrevivência da empresa, mas foi dirigido apenas para a área de serviços ? de catering, por exemplo, área em que a companhia suíça disputa liderança de mercado. Devolver a companhia ao ar, a parte mais espinhosa da tarefa, ficou exclusivamente nas mãos do governo.