silasesta30_1.jpg

“Só quero limpar a minha biografia e voltar a andar de cabeça erguida pelas ruas” SILAS RONDEAU

 

“Supostamente.? Essa palavra foi usada várias vezes para derrubar o ministro Silas Rondeau, de Minas e Energia. No dia 20 de maio, o programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu um vídeo, fornecido pela Polícia Federal, em que uma funcionária da construtora Gautama, Maria de Fátima Palmeira, subia pelo elevador privativo do Ministério de Minas e Energia (MME) levando uma bolsa, um celular e uma agenda. Logo depois, as imagens do circuito interno do prédio mostram Maria de Fátima ao lado do assessor Ivo Almeida Costa, que segurava um envelope branco. A interpretação dos policiais foi muito além. ?No dia 13 de março, o ministro Silas Rondeau recebeu R$ 100 mil entregues por Maria de Fátima por meio de Ivo Almeida?, diz o relatório final da Operação Navalha. Ou seja, no envelope, ?supostamente?, havia dinheiro. Eram ?supostos? R$ 100 mil, que, ?supostamente?, teriam sido entregues por Ivo ao chefe Silas. Este, por supuesto, deveria favorecer a Gautama numa obra do projeto ?Luz para Todos?, no Piauí. Agora, mais de um mês depois, um laudo do perito Ricardo Molina, da Unicamp, promete uma reviravolta no caso. O perito congela a imagem em Maria de Fátima e observa: ?Ela não segura nenhum envelope.? A fita segue e Molina pára novamente quando Ivo aparece. ?É uma folha de papel. Qualquer leigo tem idéia do volume que R$ 100 mil fariam. Se fossem em notas de R$ 100, seriam dois centímetros?, explica Molina à DINHEIRO. ?Eu só analiso imagens e não a imaginação. Se aquela fita era a única prova, ela é muito ruim.?

Ruim ou não, a fita foi o bastante para que a imagem de Silas fosse vinculada à propina entregue, de forma audaciosa, na Esplanada dos Ministérios. Silas caiu em depressão e dois dias depois entregou o cargo ao presidente Lula. Na terça-feira 3, contudo, o ministro da Justiça, Tarso Genro, disse ao presidente Lula que a investigação da PF nada tem de concreto contra o ex-ministro. ?Eu, particularmente, não vi nenhum delito que pudesse ser imputado ou provado contra o ministro Silas?, adiantou Genro. Assim, até prova em contrário, Silas é inocente. E isso pode fazer com que ele volte a ocupar um cargo que é estratégico para a execução do Programa de Aceleração de Crescimento ? o MME responde por R$ 274,8 bilhões das obras do PAC.

Para que isso aconteça, Silas conta com aliados de peso. A começar, pelo próprio presidente. DINHEIRO apurou que, em pelo menos três episódios recentes, Lula sinalizou que reconduziria Silas ao primeiro escalão se não surgissem evidências mais consistentes contra ele. ?Ainda não provaram nada contra esse rapaz?, disse o presidente a interlocutores próximos. Duas semanas atrás, ao dar posse ao procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, Lula fez um discurso tendo o caso Silas em mente. ?Uma coisa que me inquieta como cidadão, que me inquieta no comportamento da Polícia Federal e que me inquieta no comportamento do Ministério Público é muitas vezes não termos o cuidado de evitar que pessoas sejam execradas publicamente antes de serem julgadas?, disse o presid e n t e . Além do Palácio do Planalto, o ex-ministro tem ainda o apoio do senador José Sarney (PMDB-MA), seu padrinho político, e da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. É um time de peso e, justamente por isso, a sucessão no MME empacou. Márcio Zimmermann, que chegou a ser anunciado para o cargo, não tomou posse. Quem tem despachado, provisoriamente, é o secretário-executivo Nelson Hubner.

Silas Rondeau, por sua vez, foi orientado pelo advogado José Gerardo Grossi a não conceder entrevistas. E nem Grossi ? que é ministro do Tribunal Superior Eleitoral ? fala com a imprensa. Ambos aguardam o posicionamento da ministra do Superior Tribunal de Justiça, Eliana Calmon, que conduz o inquérito sobre o caso Gautama. A ministra do STJ pode indiciar o ex-ministro, mas, depois da perícia que negou a existência de dinheiro no envelope, é bem possível que isso não aconteça. ?Quero apenas limpar a minha biografia e voltar a andar de cabeça erguida?, disse Silas a um interlocutor próximo, na semana passada. Por enquanto, Silas não pensa em processar a União nem os meios de comunicação que o vincularam à propina, mas alguns amigos já comparam seu caso ao notório exemplo da ?Escola Base? ? uma escola infantil cujos donos foram acusados de molestar os próprios alunos em função de um erro policial.

Em Brasília, a Polícia Federal ainda defende o trabalho de sua equipe de inteligência. ?A perícia do Molina não nos interessa?, afirmou uma fonte que prefere não se identificar. ?A PF não incluiu à toa no relatório que o ministro recebeu os R$ 100 mil. Nós temos outros métodos de monitoramento, outras bases de informação.? Como nada disso veio à tona ainda, muita gente passou a ficar alerta. ?Mais uma vez, a Polícia Federal forçou a barra com elementos inconsistentes para configurar uma situação de culpa?, diz o criminalista Alberto Toron. Se o presidente Lula, de fato, trouxer Silas de volta ao Ministério, será a primeira vez que ele compra uma briga direta com a PF. ?Seria um ato de coragem e de justiça, que repararia um movimento açodado das autoridades policiais?, comenta o advogado José Roberto Batochio, ex-presidente da OAB.

 

R$ 275 BILHÕES é o volume de obras do Ministério de Minas e Energia que estão no Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC