A quantia é pequena e não vai mexer com o valor das ações da Eletrobrás. Com 20 mil reais, o executivo Silas Cavalcante está prestes a investir suas economias na compra de papéis da companhia. A operação, porém, é simbólica. Isso porque Silas é o novo presidente da empresa, um colosso com patrimônio de R$ 118 bilhões e receitas de R$ 20 bilhões. Pelo critério patrimonial, a companhia é a maior do País. Em faturamento, só fica atrás da Petrobras. No entanto, apesar do gigantismo, a Eletrobrás tem sido uma espécie de ?patinho feio? do mercado. Em um ano, suas ações subiram 1,9%, enquanto o Índice Bovespa se valorizou 36% e os papéis da Petrobras subiram 42%. A explicação para o mau desempenho, na visão de muitos analistas, é o fato de os cargos de comando na empresa e nas suas principais subsidiárias ? Furnas, Chesf e Eletronorte ? serem moeda de troca constante nas negociações políticas de Brasília. O próprio Silas, maranhense, chegou lá graças a uma indicação de José Sarney, num acordo com o PMDB. Mas ele garante que sua gestão será pró-mercado ? e a compra de uma cota pessoal de ações serviria para demonstrar seu compromisso com os investidores. ?A empresa será gerida para dar retorno aos acionistas e à sociedade?, disse Silas à DINHEIRO, em sua primeira entrevista. ?Depois da telefonia e do petróleo, a Eletrobrás será a terceira onda da Bovespa?, afirmou.

A principal missão de Silas, que vem da Eletronorte, será viabilizar o novo modelo do setor elétrico. Para isso, a Eletrobrás pretende investir R$ 5 bilhões em 2004. Entre os projetos, constam a conclusão de Tucuruí e novas usinas como a do Rio Madeira, ambas na região Norte. O volume de recursos, porém, é insuficiente. Calcula-se que as necessidades do País para evitar os riscos de novos racionamentos sejam de R$ 20 bilhões por ano. ?Vamos ser indutores do investimento?, aponta Silas. Isso significa que a maior parte terá que vir do setor privado. É aí que começam as dificuldades. Para os empresários, o modelo é confuso e estatizante. ?As regras não estão claras?, diz José Augusto Marques, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Base. ?O modelo favorece as estatais?, aponta Cláudio Salles, da Câmara Brasileira de Investidores em Energia Elétrica. As novas concessões ficarão com quem oferecer o menor valor pela tarifa. Silas, porém, diz que a taxa de retorno dos projetos será alta, entre 13% e 20% ao ano, e que os investidores terão garantia de compra da energia por cinco anos. ?Os empresários farão fila nos leilões que vão acontecer no segundo semestre?, afirma.

A seu favor, o novo presidente pode exibir a gestão feita na Eletronorte, que atua nas áreas mais remotas do País e tem um histórico de prejuízos. Dois anos atrás, o buraco havia sido de R$ 1 bilhão. Em 2003, caiu para R$ 200 milhões e os números atuais já apontam para o equilíbrio. Uma das principais medidas de Silas foi cortar o subsídio que era dado aos produtores de alumínio. Numa negociação recente, a Eletronorte firmou um contrato de longo prazo com a Albrás, ligada à Vale do Rio Doce, que irá antecipar o pagamento de US$ 1,5 bilhão, recursos que serão usados em Tucuruí. ?Silas é um técnico competente, que conhece o setor?, avalia Gustavo Gattas, analista do banco suíço UBS. ?Há uma grande esperança do mercado em relação a ele.?

O novo presidente da Eletrobrás difere muito do antecessor, o professor Luiz Pinguelli Rosa. Silas, um técnico que começou como engenheiro da Cemar, distribuidora maranhense, é disciplinado e só fala o essencial. O acadêmico Pinguelli é rebelde e não mede as palavras. Chegou até a qualificar como ?babacas? os assessores da ministra Dilma Roussef, de Minas e Energia. Também anunciou uma reestatização da Eletropaulo, que jamais aconteceu. Com Dilma, Silas tem uma relação estreita e de grande confiança. Workaholic, Dilma costuma convocar seus assessores a qualquer hora do dia e da noite. As reuniões avançam pela madrugada. Discreto, Silas só gosta de falar de barragens e linhas de transmissão. Diz que anda com um alicate no bolso para eventuais emergências. Dilma e o PT gostam disso. ?Ele foi indicado pelo Sarney, mas só emplacou porque é muito competente?, disse José Genoino, presidente do partido. Agora é esperar para ver se os R$ 20 mil que Silas investiu irão se valorizar.

POR DENTRO DA ELETROBRAS
é a segunda maior
empresa do País, atrás
apenas da Petrobras. OS PROBLEMAS
Os investimentos estão
aquém do necessário e as
ações seguem em baixa
19,5 bilhões de
reais foi a receita da
empresa em 2003. Para
este ano, a previsão é
de expansão de 10%. 5 bilhões de reais
serão investidos
em 2004. Isso representa 25% do volume
necessário no País.
118 bilhões de reais
é o patrimônio da
estatal, que controla
Furnas, Eletronuclear,
Chesf e Eletronorte. 750 milhões de dólares em equipamentos estão parados em Angra 3.
Silas é favorável à
conclusão da obra.
40 mil megawatts são produzidos por ano pela empresa. Isso representa 60% da energia brasileira. 1,9% foi a valorização dos papéis da empresa em 12 meses, muito abaixo dos ganhos de 36% do Ibovespa.