O mercado de entretenimento ao vivo no Brasil consolidou-se como um dos pilares mais resilientes da economia nacional. Estima-se que o setor movimente anualmente entre R$ 130 bilhões e R$ 150 bilhões. Essa efervescência cultural trouxe a reboque uma sofisticada indústria do crime cibernético que atinge níveis alarmantes de profissionalismo, especialmente quando o assunto é venda de ingressos pela internet.

Um novo levantamento da Redbelt Security, consultoria brasileira especializada em cibersegurança, revela o tamanho dessa ameaça. Em apenas três meses, entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, foram identificados 778 domínios falsos criados exclusivamente para simular plataformas legítimas de venda de ingressos.

O dado acende um alerta vermelho para o consumidor, especialmente quando se constata que 214 desses sites já estavam operacionais no momento da análise, prontos para capturar dados financeiros de usuários atraídos pela febre dos megashows e festivais.

A pressa para garantir um lugar em eventos com alta demanda e ingressos esgotados — os chamados “sold out” — é o gatilho psicológico mais explorado pelos golpistas, que utilizam ofertas improváveis como iscas irresistíveis.

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Evolução na venda de ingressos falsos

A estratégia dos criminosos evoluiu de simples páginas amadoras para réplicas quase perfeitas da identidade visual de gigantes do setor. De acordo com Marcos Sena, gerente de SOC da Redbelt Security, a sofisticação atual permite que os sites fraudulentos reproduzam detalhes minuciosos, como o fluxo exato de compra e a seleção de assentos específicos, incluindo número de fila e seção.

“O que chama atenção nesse levantamento é o nível de sofisticação visual dessas páginas. Em alguns casos, o site falso reproduz até o número de seção, fila e assento do suposto ingresso, o que aumenta consideravelmente a credibilidade do golpe aos olhos de quem está comprando”, afirma Sena.

Segundo o executivo, esse cuidado com a minúcia dos detalhes é uma característica dos grupos que operam de forma mais estruturada, com divisão de tarefas e reaproveitamento de infraestrutura.

Como essas páginas são frequentemente derrubadas por denúncias ou ações de autoridades, os golpistas mantêm um estoque de domínios “dormentes” que podem ser ativados em minutos, garantindo que sempre haja um link falso circulando em anúncios pagos de redes sociais ou grupos de mensagens.

Do ponto de vista econômico e de defesa do consumidor, o prejuízo vai além do valor nominal do ingresso. Dados do Banco Central e de órgãos de proteção ao crédito reiteram que o vazamento de dados pessoais e financeiros em transações fraudulentas alimenta um ecossistema de crimes subsequentes, como a abertura de contas laranjas e empréstimos indevidos.

Para Eduardo Lopes, CEO da Redbelt Security, o cenário reforça a necessidade de educação digital como linha de defesa. “Mesmo com toda a sofisticação tecnológica dos golpes, o comportamento do consumidor ainda é o fator decisivo. Pequenas verificações antes de concluir uma compra podem evitar prejuízos que muitas vezes não têm volta”, afirma.

Como não cair em golpes

  • Verifique o domínio com atenção. Golpistas não podem usar o endereço original, então criam variações parecidas, com letras a mais, trocadas ou pontos fora do lugar. Leia o endereço completo na barra do navegador antes de qualquer ação.
  • Desconfie de links recebidos por mensagens ou redes sociais. Prefira buscar o site diretamente pelo navegador ou acessar a plataforma pelo aplicativo oficial.
  • Observe a qualidade visual da página. Imagens pixeladas, logos desalinhados, textos com erros gramaticais e diagramação inconsistente são sinais frequentes em páginas fraudulentas.
  • Cheque se o site usa HTTPS. O cadeado na barra de endereços indica que a conexão é criptografada. Mas atenção: criminosos também usam HTTPS para parecer legítimos. O protocolo é necessário, mas não suficiente para garantir autenticidade.
  • Verifique a idade do domínio. Ferramentas como o Whois, disponíveis em plataformas como Registro.br, mostram quando o domínio foi criado. Sites muito recentes merecem atenção redobrada.
  • Prefira pagar com cartão virtual gerado pelo aplicativo do banco. Uma boa prática é criar um cartão diferente para cada serviço recorrente: um para o aplicativo de mobilidade, outro para o marketplace em que você mais compra, e assim por diante. Se algum dado vazar, você identifica imediatamente qual empresa foi a origem do problema. Para compras pontuais, como ingressos, gere um cartão para uso único. Ele expira após a transação e elimina o risco de cobranças futuras não autorizadas.
  • Desconfie de preços muito abaixo do mercado ou de ingressos disponíveis para eventos esgotados. Ofertas improváveis são, na maioria das vezes, iscas.
  • Se receber informações por e-mail ou mensagem, entre em contato com a plataforma original pelos canais oficiais antes de tomar qualquer decisão.

O que fazer se cair no golpe

Caso a fraude seja concretizada, a resposta deve ser imediata. O contato com a instituição bancária para o bloqueio do cartão e a tentativa de reaver valores via Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix são passos vitais.

Contudo, a prevenção baseada na educação digital e na desconfiança de links recebidos por canais não oficiais permanece como a ferramenta mais eficaz para garantir que o sonho de assistir a um ídolo não se transforme em um pesadelo financeiro de longo prazo.

O cenário de 2026 exige que o fã de música e cultura seja também um consumidor vigilante, atento às engrenagens invisíveis de um mercado negro digital que fatura alto sobre a urgência alheia.