14/03/2026 - 8:00
O resultado da Petrobras em 2025 deixou os seus acionistas, entre eles o governo federal, sorrindo de orelha a orelha. Mesmo com a baixa de 14% do preço do barril do petróleo no mercado internacional, o lucro líquido da petroleira foi estupendo: R$ 110 bilhões, ou um salto de 200% em comparação ao resultado de 2024.
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A eficiência operacional do ano passado possibilitará distribuir mais R$ 8 bilhões em dividendos para quem investiu na companhia, referentes ao último trimestre, distribuídos em parcelas entre maio e junho. Somado o resultado do ano todo, a Petrobras repassará pouco mais de R$ 45 bilhões para seus sócios. Mas o cenário de 2026 tem uma temperatura diferente para a gestão da presidente Magda Chambriard, que comanda o colosso petrolífero avaliado em US$ 112 bilhões.
Nos próximos meses, a executiva deve enfrentar o maior desafio no cargo, o que inclui uma crise internacional se formando no horizonte e pressões políticas no cenário interno. As medidas recém-anunciadas pelo governo federal relacionadas aos combustíveis dão tempo, mas não anulam a pressão sobre a companhia.
Chambriard e seus diretores já sabiam que, em um ano eleitoral, teriam que equilibrar os interesses políticos de seu maior acionista, aqui representado pelo Palácio do Planalto, e de outros sócios para manter a saúde financeira da petroleira sem afetar a economia do país.

O preço dos combustíveis é um componente importante para o cálculo da inflação e não interessa de forma alguma ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva desagradar seus potenciais eleitores com um cenário econômico adverso. Da mesma forma, os gestores da Petrobras precisam estar atentos aos interesses de seus acionistas minoritários, que não querem perder dinheiro em nome de uma eleição.
O que não estava previsto era o fato de Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, detonar uma guerra ao lado de Israel contra o Irã, um dos maiores produtores de petróleo do planeta. De imediato, o conflito já estrangulou a circulação de um quarto da produção da commodity pelo planeta com o fechamento do Esteito de Ormuz, principal acesso ao Golfo Pérsico – e gerou enorme volatilidade de preços no mercado internacional.
O Brasil (e a Petrobras) viveram algo similar em 2022, ano em que Lula foi às urnas contra o então presidente Jair Bolsonaro. Logo no início daquele ano, a Rússia de Vladimir Putin atacou e invadiu a Ucrânia, presidida por Volodymyr Zelensky. De imediato, o preço do petróleo foi catapultado para além dos US$ 130.
A alta levou o então presidente Jair Bolsonaro ao destempero em uma de suas famosas lives – quando, aos berros, atacou a política de preços da Petrobras. Por fim, o ex-presidente da República, atualmente preso em Brasília, demitiu o general Joaquim da Silva e Luna do posto de presidente da petroleira.
Pacote do governo para segurar preços
Lula disse, nesta semana, que não vai haver intervenção na política de preços da Petrobras. Ele reuniu quatro ministros na quinta-feira, 12, em uma coletiva para jornalistas no Palácio do Planalto, onde anunciou um pacote de medidas com o fim de conter os efeitos da alta do petróleo para o mercado interno de combustíveis. “Estamos fazendo um sacrifício, uma engenharia econômica para evitar que os efeitos das irresponsabilidades das guerras chegue ao povo brasileiro”, disse o petista.
O presidente da República assinou dois decretos e uma Medida Provisória (MP). O primeiro, de número 12.875, zera as alíquotas de PIS e Cofins sobre importação e comercialização de diesel. São os únicos impostos federais cobrados sobre combustíveis. Já o decreto 12.876 institui medidas de transparência e fiscalização para combate à especulação de preços, com o fim de evitar abusividade ao consumidor.
Por fim, a MP 1.340 institui uma subvenção ao óleo diesel para produtores e importadores a ser operada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Trocando em miúdos, o governo zerou impostos de importação sobre o diesel e instituiu uma subvenção a produtores e importadores, de R$ 0,32 por litro, via MP. Somadas, as medidas buscam reduzir o preço na bomba em R$ 0,64 por litro e vão custar R$ 30 bilhões ao governo.
A MP prevê ainda um imposto de exportação de 12% sobre o petróleo bruto para segurar produto no mercado interno (a iniciativa também ajuda a bancar a subvenção). Os benefícios só chegarão a produtores e importadores que comprovem o alcance do desconto para a distribuidora.
Com o conjunto de medidas, o governo federal ganha tempo antes de intervir na Petrobras, evitando que a estatal faça um reajuste impopular. Analistas avaliam que a margem de manobra para Magda Chambriard e sua diretoria lidarem com o caixa abastecido e o subsídio para segurar a defasagem atual de preços da gasolina e do diesel refinado já é apertada.
O petróleo no cenário internacional, hoje, não está no mesmo patamar de quatro anos atrás. Mas o conflito internacional desta vez está num epicentro nevrálgico para o petróleo, no Oriente Médio, e desse modo a cotação internacional já subiu 30%, a US$ 90 o barril, em pouco tempo. E o futuro de curto prazo é incerto.
O preço da commodity chegou a ceder um pouco na terça, 10, depois que Trump afirmou que a guerra estaria chegando ao fim. Contudo, a julgar pelo tom dos discursos posteriores, tanto do norte-americano como de autoridades iranianas, o conflito se intensificou pouco depois. O governo iraniano, inclusive, ameaçou plantar minas navais no Estreito de Ormuz. Em meio à volatilidade, o barril de petróleo chegou a ultrapassar US$ 100 nesta semana.
O cenário é movediço para a atual gestão da Petrobras. Por mais planos estratégicos que existam na gaveta, considerados distintos cenários de projeções, o mundo vive um momento atípico. “É absolutamente novo o que está acontecendo no mundo. Nunca houve uma ruptura como a atual. É mudança de mercado diferente das que estamos acostumados”, disse David Zylbersztajn, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), à IstoÉ Dinheiro. Ele foi o primeiro a ocupar o posto no órgão em 1998. Embora acredite que o tempo de duração do conflito ainda é curto para afetar a política de preços agora, o desafio da Petrobras é grande, opina.
É preciso considerar o tamanho da atual defasagem da política de preços. A Petrobras importa uma parte do produto refinado para abastecer o mercado interno e exporta óleo bruto, o principal item da balança comercial brasileira. A empresa vive um cenário de perdas e ganhos, já que a alta de preços penaliza sua política interna tanto quanto pode engordar o caixa com exportações.
Hoje, 25% do diesel refinado e 10% da gasolina consumidos no Brasil são trazidos do mercado externo – pela petroleira e por agentes privados. Em diesel, sobretudo, é um volume significativo que vem de fora para abastecer a demanda de mercado interno de combustíveis.
Um relatório elaborado pelo Goldman Sachs, em 10 de março, indica que há hoje uma defasagem de 35% entre os preços de venda do diesel no mercado interno e os de importação. É a maior distância desde 2022 – e um nível considerado crítico por mais de uma fonte consultada pela IstoÉ Dinheiro.
Quando o valor fica muito mais alto lá fora há comprometimento do setor internamente. “A defasagem desincentiva a atuação dos importadores”, resume Ruy Hungria, analista da Empiricus. Não só a própria Petrobras perde dinheiro comprando caro e vendendo barato, já que ela importa parte do volume de refinado, como o importador privado não quer se arriscar a concorrer com a petroleira.
Uma defasagem da tabela de preços da maior fornecedora do mercado interno traz risco de trava ao mercado. A dinâmica é essa: caso a petroleira reduza a compra externa do refinado, poderia faltar produto internamente em algum momento. Isso abre oportunidade para um importador privado comprar o diesel lá fora e vender pelo preço dele (mais caro que o de tabela da Petrobras).
Mas essa operação de compra não é rápida. Há o risco de a petroleira colocar produto no mercado novamente lá na frente, pelo preço mais baixo praticado – e será escolhido pelo posto de combustível. Isso deixa o importador reticente. Grande disparidade em preços por muito tempo pode levar a oferta insuficiente para abastecer a demanda interna. “Isso seria resolvido com reajuste da Petrobras, a preços para níveis mais condizentes com os atuais. Mas realizar reajustes em ano de eleição também não costuma ser uma tarefa trivial para a estatal”, afirma Hungria.
Impactos na inflação
O pacote anunciado pelo governo talvez não seja o suficiente para zerar a defasagem, mas melhora o equilíbrio. “Não dá para saber o quanto a Petrobras vai elevar os preços. Mas [a iniciativa] abre espaço para que reajustes sejam feitos com impactos mínimos no preço final para o consumidor”, continua o analista.
Caso a referência de cotações internacionais se mantenha em níveis atuais, a petroleira provavelmente terá de reajustar o diesel nos próximos dias ou semanas, acreditam os analistas do Goldman Sachs Bruno Amorim, Guilherme Martins e Huama Belmonte.
O reajuste não precisa ser de 30% internamente, avalia o economista Adriano Pires, que foi cotado a assumir a presidência da Petrobras em 2022 após a demissão do general Silva e Luna. “É um aumento para mostrar ao consumidor que a tendência do petróleo hoje é crescente. É importante dar o sinal de preço adequado”, opina.
A diretoria da Petrobras reconheceu o cenário de incerteza elevada, mas enfatizou na última teleconferência de resultados, no início de março, que a companhia permanece estruturalmente posicionada para operar em uma ampla gama de cenários de preços de petróleo, informa relatório do BTG.
Magda Chambriard destacou, na semana passada, a resiliência da empresa diante das oscilações globais. Ela enfatizou em uma entrevista à agência Reuters que “quem apostar contra a Petrobras vai perder”. Qualquer decisão sobre o repasse de preços aos combustíveis, reforçou a presidente da estatal, vai depender de uma análise profunda do novo cenário desenhado pelo contexto mundial.
Mesmo sem alteração nos preços da Petrobras, algumas distribuidoras começaram a repassar preços, conforme relato da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis). Isso é ruim para o consumidor, seja pessoa física ou jurídica, já enforcado pelo alto custo do dinheiro.
A inadimplência em empréstimos concedidos com recursos livres, quando bancos e clientes combinam a taxa de juros da operação, em janeiro, alcançou 5,5% (a mais alta desde 2017), segundo o Banco Central (BC). A alta de combustíveis agora traz um risco inflacionário que pode levar o BC a segurar o início do ciclo de cortes da Selic, no patamar mais alto em duas décadas.
Risco eleitoral
O governo federal já calcula o tamanho do problema, e o risco eleitoral a partir de uma alta nos combustíveis neste momento da economia. Uma pesquisa da Quaest recém-saída do forno, em 11 de fevereiro, indicou o primeiro empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Definitivamente, não é o momento de uma medida impopular.
Mas o petróleo voltou a superar os US$ 100 nesta quinta, quando foi fechada esta edição de IstoÉ Dinheiro, após nova onda de ataques do Irã a estruturas produtoras em países do Golfo. Nem uma liberação de estoques do óleo por países da Associação Internacional de Energia (AIE) ajudou.
O pacote melhora equilíbrio de preços internos (a defasagem é de 35%), reduzindo impacto ao consumidor, mas é preciso esperar uns dias e avaliar os impactos. Em meio ao anúncio do pacote de medidas feito por Lula na quinta-feira, 11, no Palácio do Planalto – os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Alexandre da Silveira (Minas e Energia) e Rui Costa (Casa Civil) integraram a tropa do presidente na coletiva para jornalistas – o governo destacou o escoamento da safra agrícola.
“A maior pressão do mercado hoje vem do diesel, não da gasolina. O diesel é maior razão de preocupação porque afeta de maneira mais enfática o escoamento da colheita que está sendo feita e acontece por caminhões movidos a diesel”, disse Haddad. As medidas, continuou o ministro, não afetam em “absolutamente nada” a política de preços da Petrobras, nem alteram a realidade fiscal do país.
