cavalo_01.jpg

Pacto de competitividade: independentemente de gostar ou não de seus métodos, a maioria está convencida de que só ele pode tirar o país da crise ou mergulhá-lo definitivamente na depressão. Na terça, 8, o apoio empresarial foi dado

 

 

Domingo Cavallo encontrou, finalmente, um desafio à altura da sua lendária ambição: quer tornar-se o primeiro economista a salvar um país, contrariando a inclinação da profissão para afundá-los. Na semana passada, em uma Buenos Aires gelada pelos ventos de outono, sua figura de olheiras cansadas era o que havia de mais parecido com a esperança. ?Estamos nas mãos dele?, resumia, olhando as próprias mãos, o motorista de táxi Nicolás Morelli, um exaltado nacionalista de 54 anos. Ele acredita, como milhões dos 37 milhões de argentinos, que o sonho de Cavallo de tornar-se presidente, aliado a seus talentos de economista e à experiência de uma década de poder, o levará a encontrar uma saída para o labirinto de três anos de recessão. ?Ele tem um ás de espadas na manga?, sustenta Morelli. E complementa: ?Ou então estamos perdidos?. É isso. Sem o carisma de Perón, o charme de Evita ou a magia de Maradona, Cavallo ingressou, desde a sua posse em 20 de março passado, no Panteom restrito dos salvadores da pátria argentina. Goste-se ou não dele, o economista de 56 anos tornou-se insubstituível. ?Este país depende, hoje, da responsabilidade do ministro Cavallo e da responsabilidade da oposição peronista?, resume Diego Guelar, ex-embaixador no Brasil e assessor de Carlos Ruckauf, governador peronista da província de Buenos Aires. Assim como Cavallo, o governador é candidato a presidente nas eleições de 2003, e o sucesso do ministro pode ser a tumba de suas aspirações. Mas Ruckauf apóia Cavallo, porque não há outro jeito. Guelar explica: ?Agir de outra maneira seria suicídio. Estamos em uma emergência nacional?.

 

cavalo_03.jpg

Na porta: protesto na terça, 8, com pornografia contra o IVA

Em um país menos contraditório do que a Argentina, essa canonização em vida dificilmente ocorreria. Afinal, como ministro da Economia no primeiro governo de Carlos Menem, Cavallo deu pessoalmente o nó que mantém amarrada a economia do país: a lei de paridade um a um entre o dólar e peso. Esse modelo, adotado em 1991, acabou com a hiperinflação, mas vem corroendo inexoravelmente a competitividade do país. Por conta da paridade a Argentina é hoje um país onde um Gol Mil custa 13 mil dólares e o desemprego está em 15%. Essas coisas deveriam pesar contra Cavallo, e pesam. Tanto que ele chegou em terceiro na última eleição para presidente, com menos de 12% dos votos. Sua visão ultraliberal foi derrotada nas urnas pelo discurso social de Fernando De la Rúa. Mas, depois da crise política e financeira que devorou os primeiros 12 meses do governo Radical ? e cuspiu dois ministros da Economia ? trazer de volta o criador da convertibilidade, dando a ele poderes de verdadeiro primeiro-ministro, passou a ser visto por boa parte dos argentinos como a última opção. ?Eu não gosto dele, mas é o único que tem força para se impor aos políticos?, opina Juan Carlos Torres, contador aposentado de 70 anos e apaixonado entusiasta do Mercosul. Na semana passada, uma pesquisa divulgada pelo jornal La Nacion mostrou que 43% das pessoas acham que agora é Cavallo quem manda no país. Apenas 7% disseram que De la Rúa continua no leme.

Que ninguém tenha dúvida: o estrelato do ministro não é nada confortável. Ao longo da semana passada, as más notícias se acumulavam na frente financeira e não havia qualquer sinal da esperada recuperação econômica. As vendas no varejo continuavam caindo e a classificação de risco da dívida argentina piorou. Aumentou o custo de financiamento do débito e a crucial troca de US$ 30 bilhões em títulos públicos, concebida por Cavallo como uma renegociação de fato, esbarra na má vontade dos banqueiros e dos políticos. Qualquer pessoa normal, sobre a qual pesasse tamanha expectativa em uma situação tão adversa, estaria em pânico. Mas ele não é exatamente normal. ?Esse sujeitotem cabeça clara, dedicação de 24 horas aos problemas, energia sem par e absoluta confiança em si mesmo?, define Juan Carlos de Pablo, um economista tornado jornalista que apresenta um conhecido programa de entrevistas na televisão argentina. Ele é amigo familiar do ministro há 25 anos e recentemente converteu-se em seu biógrafo. De Pablo conta que Cavallo, tipicamente, imaginava que o seu simples retorno ao governo fosse debelar a crise financeira e provocar a faísca da reativação econômica. Como essa mágica não aconteceu, ele agora está sendo obrigado a trabalhar duro contra a crise, usando as ferramentas de qualquer economista. ?Nos primeiros dias ele tentou a heterodoxia e a política?, diz De Pablo. ?Como isso não deu certo, ele agora está se tornando cada vez mais ortodoxo e menos político. No fundo ele é apenas mortal.?

Embora o amigo do ministro brinque com a sua falibilidade, há muita gente em Buenos Aires que esperava de Cavallo uma solução instantânea, e que agora está perigosamente desapontada. O executivo de telecomunicações Mario Monti, de 29 anos, é um deles. ?Cavallo fez um monte de promessas, mas está nos dando mais do mesmo: impostos e recessão. Eu estou cansado de pagar sem ver resultados?, diz ele. Outro que não gosta do que vê é o empresário Guillermo Dietrich, dono de um revendedor Volkswagen que fatura US$ 40 milhões por ano. Ele acha que a situação só piorou desde a chegada do ministro ? ?eu tenho uma margem de 0,5% e me meteram um imposto sobre cheques de 0,4%? ? e que Cavallo está sendo tratado com excessiva deferência. ?O ministro Jose Luis Machinea caiu porque a taxa de risco da dívida do país chegou a 700 pontos. Com Cavalo fomos a 1.300 e agora estamos em 900. Por que ele ainda não caiu??, pergunta. Talvez porque não haja quem o substitua. Talvez porque suas políticas, obviamente, ainda não tiveram tempo de dar resultado. Talvez porque ele, ao contrário de Machinea e de Lopes Murphy, que durou só duas semanas no cargo, saiba mobilizar a mídia e as esperanças a seu favor. Na quinta-feira, 10, por exemplo, Cavallo obteve um dia de trégua nos jornais assinando um ?pacto de competitividade? com o setores têxteis e de calçados. Trata-se de uma complexa redução de impostos, acertada entre governo, empresas e sindicatos, que tem por objetivo diminuir os custos e gerar mais empregos formais. O setor metal-mecânico já tem um pacto e os frigoríficos estão na fila. Isso é bem parecido com os câmaras setoriais que o Ministério do Desenvolvimento está articulando há meses no Brasil, com a diferença, substancial, de que Cavallo pôs seu projeto em pé em apenas 50 dias. ?Isso é o começo?, disse Cavallo na cerimônia de assinatura do pacto.

Em dois anos, todos os setores da economia terão uma redução de custos de 20% e serão competitivos no mercado interno e externo.? Na mesma ocasião, anunciou outra idéia que vai realimentar a lenda da sua criatividade: a transformação de parte dos encargos trabalhistas em crédito de ICM, para desestimular o trabalho clandestino e a evasão fiscal. O resultado desse show de dinamismo é que mesmo aqueles que têm reservas em relação a ele acabam se curvando ao inevitável. ?Nos anos 90 Cavallo fez muito mal à indústria, mas esperamos que a experiência tenha lhe ensinado que ela é importante?, afaga Jorge Vartparonian, dono de uma fiação ? a Tipoiti ? que até a desvalorização de 1999 exportava para o Brasil. Outro empresário, o fabricante de tubos de aço Juan Lascorain, cliente da Usiminas, expressa sua rendição ao ministro em uma imagem futebolística. ?Nem ele nem nós vamos jogar a partida anterior?, diz ele. ?O cenário mudou para todo mundo.?

Tal como o vê Cavallo, o cenário argentino demanda dois tipos de medida. No lado político, a montagem de uma ampla aliança que suporte um governo de salvação nacional, com ele, Cavallo, na figura de salvador. Como verdadeiro presidente, ele está tratando de costurar esse acordo pessoalmente, atraindo o suporte dos peronistas para o governo em troca de coalizões com seu partido ? a Ação Pela República, que tem 12 congressistas ? nas eleições legislativas de outubro. Mas a esta altura ainda não está claro se Cavallo conseguirá um arranjo estável o suficiente para sustentar as medidas econômicas que deseja implementar. ?Murphy não caiu por ter um mau plano. Ele não tinha é suporte político?, aponta Osvaldo Giordano, economista que conhece Cavallo há 15 anos, esteve com ele no governo e hoje dirige a Fundação Novo Millenium, o braço intelectual do partido do ministro. O mesmo Giordano explica que a outra perna do plano, a econômica, é simples em suas linhas mestras. De imediato, trata-se de tranqüilizar o mercado financeiro, reduzir o risco país, renegociar a dívida externa de US$ 170 bilhões (com a troca de títulos) e aumentar emergencialmente a arrecadação, para fechar as contas. Em um segundo momento, isso permitirá reduzir as taxas de juros, reativar a economia e promover, com a máquina em movimento, uma reforma tributária que reduza impostos e estimule ainda mais a produção.

Cavallo tem martelado esse plano com tanta insistência, e a cultura da crise econômica é tão disseminada na Argentina, que qualquer um na rua, de vendedor de livros a professora de música, tem opinião sobre ?a estratégia do risco país?. Também nisso o país é único no mundo. O professor Ricardo Schefer, do Centro de Estudos Macroeconômicos Argentinos, o Cema, discorda de aspectos fundamentais do plano geral de Cavallo, mas faz duas concessões importantes. Primeiro, elogia o fato de o ministro conseguir explicar por que faz cada uma das coisas que faz, o que é fundamental para se obter apoio público. E a segunda concessão: ?Ele encontrou o governo com o caixa vazio. Renegociar e aumentar impostos eram as únicas alternativas à mão. Não sei se alguém faria diferente em 50 dias.? Os dois temas que mais provocam polêmica nesta segunda encarnação de Cavallo ? seu aparente desdém pelo Mercosul e a inclusão do euro na cesta da paridade com o dólar ? parecem ser acessórios à gestão econômica. Por que, então, falar neles agora e aumentar o nível de ruído? ?Porque ele não se agüenta calado?, exaspera-se o amigo De Pablo. ?Sua ansiedade é tão grande que o agora e o depois para ele não existem. É tudo a mesma coisa.? Para compreender o superministro, portanto, é bom, como sugere o ex-embaixador Guelar, prestar mais atenção no que ele faz, e não no que ele fala: ?Cavallo fala por ideologia, e a ideologia distorce a realidade?.

Na conversa biográfica que gravou com De Pablo, o ministro confessa que a solidão é a coisa que mais o angustia. Diz que freqüentemente abandona lugares esplêndidos, para onde a sua condição de economista famoso o leva como convidado, porque não consegue passar dois dias sem ter um íntimo com quem conversar. Ele é o tipo de pessoa, diz De Pablo, que invade o quarto da casa dos outros porque não suporta esperar na sala para dizer alguma coisa.

Neto de imigrantes italianos do Piemonte, filho mais velho de um pequeno fabricante de vassouras da província de Córdoba, Cavallo é casado há mais de 30 anos com uma descendente de armênios e pai coruja de um casal de adultos. A moça, aliás, recém anunciou que vai se casar com um americano e morar nos Estados Unidos, para desgosto do pai. As pessoas que convivem com ele dizem que o ministro não é rico, embora cobre US$ 20 mil por palestra. Mora em um apartamento de 300 metros no bairro chique de Palermo, que vale cerca de US$ 600 mil, tem dois carros e uma casa em Córdoba. Queixa-se publicamente de que gasta mais do que deveria e de que tem pouco dinheiro guardado. Sua tara declarada não é a fortuna, mas o poder. ?Ele quer ser presidente, sim. Mas do sistema solar?, diz De Pablo. O empresário Luis Corsiglia, dono de uma corretora na Bolsa de Buenos Aires, não é amigo de Cavallo, mas sabe, como todo mundo, qual é o seu sonho. ?A presidência é a cenoura que vai motivar Cavallo a tirar a Argentina da crise?, diz ele. ?Se ele falhar, perdemos todos.? Talvez seja o caso de dizer que nunca tantos dependeram tanto da ambição de um homem só.