19/04/2006 - 7:00
A queda-de-braço travada há 18 meses entre o câmbio e os exportadores começou a mostrar vencedores. E perdedores. No primeiro bimestre deste ano, segundo a Associação de Comércio Exterior, 596 empresas desistiram de exportar. Mesmo assim, todas as segundas-feiras o governo anuncia novos recordes na balança comercial. Não foi diferente na semana passada. As vendas para o mercado externo somam US$ 32,2 bilhões até os primeiros dias de abril, com expansão de 30%. Mas como esses números altissonantes se relacionam com as centenas de empresas expelidas do mercado externo? Simples. Setenta empresas fazem sozinhas 53% das exportações. Apenas três delas ? Petrobras, Vale e Embraer ? foram responsáveis por 15,5% de tudo que foi exportado nos primeiros três meses do ano. ?As exportações estão cada vez mais centradas nas grandes?, constata Humberto Barbato, do Ciesp. Essa tendência se comprova com um levantamento realizado pela AEB: no final dos anos 90, a média exportada pelas empresas era de US$ 3 milhões. Hoje é US$ 7 milhões. ?A concentração está aumentando?, constata José Augusto de Castro.
Analisados de perto, os números da balança comercial mostram dados preocupantes. Um deles é que a macroeconomia das exportações vai bem, enquanto a microeconomia vai mal. Embora a balança seja superavitária, o saldo sócio-econômico no interior da economia está capenga. Outro problema: o Brasil está voltando a exportar bens primários. As gigantes que lideram as vendas são fabricantes de gasolina, minério, soja e aço. Como os preços desses produtos estão batendo recordes históricos, o superávit não arrefece. Mas essa dependência, na avaliação de analistas, é péssima para o País. Apesar do comércio mundial ser momentaneamente favorável, o Brasil poderá perder receita com exportação se os valores voltarem a cair. Prevendo esse risco, a Bunge, exportadora de soja, começou a transferir suas atividades para a Argentina, de onde vai vender óleo de soja. Mesmo empresas como GM, Ford e Volks, apesar de continuarem entre os maiores exportadores, estão perdendo espaço desde que o real começou a se valorizar. A Fiat, por exemplo, prevê uma queda de 30% nas exportações em 2006. Carlos Zignani, da Marcopolo, diz que pode transferir a produção de componentes para outros países. No setor têxtil, a Buettner vai exportar, neste ano, metade do que vendeu em 2005. A Azaléia transferiu para a China parte da produção e terá custo 30% menor. ?Daqui a pouco o Brasil voltará a ter só meia dúzia de itens na sua pauta de exportação, como no Império?, conclui Barbato, do Ciesp.