Há uma regra nas grandes corporações sem registro formal nos manuais de administração: quem assume o comando de uma empresa deve apagar o rastro do seu antecessor. O novo presidente mundial da Hewlett-Packard, Mark Hurd, seguiu esse princípio. Depois de mergulhar nos números internos da companhia, ele emergiu recentemente com anúncios negativos e uma boa notícia: quer reconduzir a HP ao seu papel histórico de uma das empresas mais inovadoras da indústria de tecnologia mundial. Para alcançar a meta, o executivo pretende cortar na própria carne. A primeira medida atingiu os 150 mil empregados. Em quatro anos, principalmente nos Estados Unidos, 10% serão dispensados. Hurd também anunciou que ficará de fora de parcerias sem foco para a empresa, como a venda em conjunto com a Apple de iPods, os tocadores de MP3 que já estão nas mãos de 20 milhões de pessoas no mundo. O acordo feito pela ex-presidente da HP, Carly Fiorina, em 2004, foi cancelado na semana passada. Por último, o novo homem forte da HP mandou avisar da sua desistência do mercado asiático de câmeras digitais, dominado pela marcas locais, e a concentração do foco nos consumidores desses produtos nos EUA e América Latina. ?Nossa atual estrutura é simplesmente insustentável?, afirmou Hurd no comunicado distribuído no dia 19 de julho aos funcionários. ?Precisamos construir uma saúde financeira de longo prazo.?

A HP é o próprio sinônimo da tecnologia. Fatura US$ 83 bilhões por ano e está presente em 170 países. A grandeza de seus números é exatamente o seu problema. Nos últimos tempos, a companhia estava perdendo a principal característica que acompanha a marca desde os seus fundadores, Bill Hewlett e Dave Packard: a capacidade de inovação. Fiorina abriu várias frentes, incluindo o acordo com Apple e a fusão com a fabricante de PCs Compaq, mas terminou demitida após uma feroz briga com os acionistas e a própria diretoria. Hurd assumiu o desafio após 25 anos como empregado da NCR, que desenvolve softwares de automação comercial e bancária. Ele saiu do antigo emprego onde era o presidente mundial para ganhar US$ 6,2 milhões anuais e a possibilidade de acumular outros US$ 17 milhões nos próximos quatro anos, em função das 700 mil ações da companhia que recebeu como parte da negociação.

O novo presidente da HP é conhecido pela sua capacidade de simplificar estratégias de negócios e aumentar os ganhos dos acionistas. Hurd diz que daqui em diante a prioridade da HP será o consumidor e tudo acontecerá em torno dele. A sua intenção é promover uma profunda oxigenação nos quadros da corporação, fundada em 1939. O executivo pretende estimular a saída ou aposentadoria de colegas e abrir espaços para as mentes mais jovens. No caso do Brasil, os executivos locais ainda tentam entender o que acontece na matriz. A HP brasileira está numa situação estável. Continua nas primeiras posições na venda de computadores e apostando nas áreas de impressão colorida e fotografia digital. Todos seguem as novas determinações sem pestanejar. Afinal, ninguém gosta de contrariar o novo chefe. Principalmente quando ele ainda está escolhendo quem serão os astros do seu time.

US$ 83 bilhões é quanto a HP faturou no ano passado com as
vendas somadas das suas subsidiárias em 170 países