Ninguém questiona: a grande notícia das últimas semanas foi o fato de a economia brasileira ter descolado da Argentina. Mesmo com Domingo Cavallo a um passo da moratória, o dólar continuou em queda livre no Brasil, provocando uma onda de otimismo. Só que há uma turma que continua monitorando a situação argentina com especial apreensão. São os 400 empresários brasileiros que cruzaram a fronteira e instalaram filiais no país vizinho. Ao todo, foram US$ 2 bilhões em investimentos nos últimos cinco anos. Na lista, estão nomes respeitáveis como Ambev, Sadia, Marcopolo, Latasa, Itaú e Grupo Verdi. Hoje, depois de mais de três anos de recessão, o sentimento é de desolação. ?A Argentina nunca correspondeu às nossas expectativas?, lamenta José Carlos Martins, presidente da Latasa, fabricante de latas de alumínio. Com um investimento de US$ 60 milhões, a empresa construiu uma fábrica com capacidade para produzir 1 milhão de latas por ano. A ociosidade sempre foi próxima a 50%. Parte do maquinário foi transferida para uma planta no Nordeste do Brasil e o que ficou na Argentina continua a dar prejuízo. Sem perspectivas, a Latasa cortou custos, adequou a produção e congelou os investimentos. ?Agora é esperar e ver o que vai acontecer?, diz.

Reforma gerencial. Não é um caso isolado. A experiência de
outros empresários brasileiros na Argentina revela uma sucessão
de expectativas frustradas. A fabricante de ônibus Marcopolo está com a filial de Rio Cuarto, na província de Córdoba, praticamente parada. Com capacidade para produzir mil ônibus por ano, a Marcopolo argentina vai colocar nas ruas apenas poucas unidades em 2001. Outra estrela brasileira atingida é a Ambev. Dona das marcas Brahma e Antarctica, a companhia teve uma queda de
9,2% nas vendas do terceiro trimestre de 2001 em comparação
ao mesmo período do ano passado. E a Sadia, velha conhecida
dos argentinos, vendia 18 mil toneladas de carne por ano até
1999. Hoje, o volume é de apenas 6 mil toneladas.

Enquanto esperam, os brasileiros se defendem das incertezas do país com mudanças gerenciais. Já têm em prática uma espécie de manual de sobrevivência. A regra de ouro é jamais contrair dívidas. Numa desvalorização, os passivos seriam multiplicados. Regra número dois: fugir de possíveis caloteiros e só trabalhar com clientes de primeira linha. Com a inadimplência em alta na Argentina, a empresa que cair nessa cadeia de suspensão de pagamentos é séria candidata a se tornar devedora também.

Apesar dos pesares, por ora ninguém pretende encerrar as atividades em terras argentinas. ?É mais fácil parar a produção, do que deixar o país?, diz Eloi Rodrigues de Almeida, presidente do Grupo Brasil, associação dos empresários brasileiros instalados na Argentina. Para eles, é preferível amargar um prejuízo temporário do que abrir mão do Mercosul.