Após a retirada das tropas americanas da base aérea de Bagram, os soldados afegãos que agora controlam este ponto estratégico, que inclui uma grande prisão com milhares de talibãs presos, vivem com a certeza de que o inimigo vai atacar.

Este impressionante complexo militar, uma verdadeira cidade em miniatura, abrigou dezenas de milhares de soldados americanos e aliados e foi uma das bases mais importantes na guerra de duas décadas no Afeganistão.

Os últimos soldados americanos deixaram a base na semana passada, criando um enorme vácuo de segurança que os militares afegãos terão de preencher.

O novo comandante da base de Bagram, o general Mirasadulah Kohistani, falou abertamente esta semana sobre os desafios durante uma visita de vários jornalistas à base, agora quase deserta.

“Se nos compararmos com os americanos, há uma grande diferença”, disse Kohistani, reconhecendo que suas forças não são tão “poderosas”.

“Mas tentamos fazer o nosso trabalho o melhor que podemos, de acordo com as nossas possibilidades”, disse ele, admitindo que soube que as forças americanas tinham deixado a base quando já não havia mais nenhum soldado americano instalado nela.

A este respeito, o porta-voz do Pentágono, John Kirby, justificou na terça-feira que “a hora exata da partida não foi divulgada por razões de segurança operacional”.

Ele garantiu, no entanto, que as autoridades militares e políticas do Afeganistão foram informadas dois dias antes.

A apenas 50 km de Cabul, essa base é fundamental para a segurança da capital e também protege uma parte importante do norte do país, onde os talibãs multiplicaram suas ofensivas nas últimas semanas e ganharam terreno.

Kohistani insiste em que suas tropas serão capazes de proteger a base dos talibãs e que tem soldados “suficientes”.

Mas os 3.000 homens sob seu comando estão longe do número das forças internacionais nos momentos mais importantes desta base.

Em seu interior, as tropas americanas tinham piscinas, cinemas, spas e lojas de fast food, como Burger King e Pizza Hut.

Agora, o cenário é outro. Para os soldados de Kohistani, os locais de entretenimento já estão fechados e, dos dois espaços que eram restaurantes, escapa apenas um cheiro podre de caixas de comida vencida.

– Ataque talibã –

Em um claro sinal das dificuldades pelas quais os militares afegãos estão passando sem o apoio dos EUA, cerca de 1.000 soldados fugiram para o vizinho Tajiquistão na segunda-feira, após confrontos com os talibãs.

Em Bagram, Kohistani afirma ter recebido relatos de que os talibãs estão fazendo “movimentações em áreas rurais” perto da base.

Um soldado chamado Rafiullah traçou uma imagem clara do que ele acredita que vai acontecer.

“O inimigo está determinado e é claro que tentará atacar aqui”, disse ele. “Mas não vamos permitir”, acrescentou.

Se houver um ataque a Bagram, um dos alvos será, sem dúvida, a prisão que abriga até 5.000 prisioneiros talibãs.

“Não viemos aqui para dormir. Estamos todos preparados para proteger Bagram”, insistiu Rafiullah.

Outro soldado comentou, desafiadoramente, que está pronto para lutar contra os talibãs, embora admita alguma preocupação com a falta de meios materiais e de liderança.

“Não vamos nos render, mas precisamos de armas e de forte apoio de nossos líderes”, declarou.

O controle da base de Bagram reflete as lutas pelo poder no Afeganistão nos últimos anos.

A pista de pouso foi construída pelos americanos durante a Guerra Fria, na década de 1950, e a União Soviética a expandiu após invadir o Afeganistão, em 1979.

Após sua retirada, a base foi controlada pelo governo afegão apoiado por Moscou e, mais tarde, pela frágil aliança de grupos mujahedines na década de 1990.

Posteriormente, Bagram caiu nas mãos dos talibãs durante a guerra civil que os levou ao poder em 1996.

Após os ataques do 11 de Setembro, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e assumiram o controle da base. Esta infraestrutura foi usada para lançar ataques aéreos contra os talibãs e proteger as forças afegãs.