03/02/2020 - 9:56
Combates entre soldados turcos e o exército sírio deixaram, nesta segunda-feira, mais de 20 mortos no noroeste da Síria, aumentando as tensões entre a Turquia e a Rússia, principal aliado do regime sírio.
Trata-se do incidente mais sério entre Damasco e Ancara desde a intervenção da Turquia no conflito sírio em 2016 para combater o grupo Estado Islâmico (EI) e neutralizar o progresso das forças curdas perto de sua fronteira.
Os confrontos diretos entre a Turquia, que apoia os rebeldes sírios, e as forças do regime sírio foram raros desde o início da guerra em 2011.
Os combates começaram com tiros do regime contra posições turcas, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, criticou na semana passada a Rússia, acusando-a de “não honrar” os acordos bilaterais destinados a impedir uma grande ofensiva do regime no noroeste do país.
“Esperamos que cada um assuma suas obrigações no âmbito dos acordos de Astana e Sochi”, destinados a alcançar um cessar-fogo na Síria e dos quais Moscou e Ancara são os principais signatários.
“E poderemos trabalhar no âmbito destas obrigações”, disse Erdogan nesta segunda-feira em Kiev.
O confronto de hoje começou com um bombardeio do regime sírio contra posições turcas em Idlib, horas depois que um comboio militar turco com ao menos 240 veículos entrou no noroeste da Síria.
Cinco soldados e três civis turcos morreram.
Entre os civis, pelo menos 14, incluindo várias crianças, morreram e dezenas ficaram feridos nos bombardeios aéreos no noroeste da Síria, onde as forças do regime aliadas ao exército russo combatem os jihadistas e rebeldes, segundo o OSDH, que não informou o autor do ataques.
“Aviões de combate atacaram um carro que transportava pessoas deslocadas”, disse à AFP o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahman. Sete membros da mesma família estão entre as vítimas, informou.
– “Prestar contas” –
Os combates entre soldados sírios e turcos ocorrem alguns dias depois que o presidente turco
“Continuaremos a pedir que prestem contas”, alertou Erdogan, que pediu à Rússia que não “impeça” a resposta turca.
O ministério da Defesa turco informou que os militares atacados foram enviados a Idlib para reforçar os postos de observação turcos na região.
O porta-voz do partido de Erdogan, o AKP, disse que o regime sírio atacou os soldados turcos porque se sentia “protegido pelo guarda-chuva russo”.
O ministério da Defesa da Rússia afirmou, por outro lado, que o grupo de soldados turcos realizava deslocamentos na zona de distensão de Idlib (…) sem ter avisado a Rússia”.
A Turquia destacou militares em 12 postos de observação na região de Idlib, no âmbito de um acordo concluído com a Rússia para acabar com a violência no último reduto jihadista e rebelde na Síria.
Mas as forças do regime de Bashar Al-Assad intensificaram sua ofensiva nesta província e ganharam terreno.
Na quarta-feira, reconquistaram a cidade estratégica de Maret al-Numan, a segunda maior cidade da província de Idlib.
Diante desse avanço, Erdogan ameaçou na semana passada recorrer à “força militar”.
Mais da metade da província de Idlib e territórios vizinhos das regiões de Alepo, Hama e Latakia são controlados pelos jihadistas da Hayat Tahrir al Sham (HTS), ex-facção da Al-Qaeda da Síria.
Com o apoio de Moscou, mas também do Irã, o regime sírio registrou importantes vitórias nos últimos dois anos e agora controla mais de 70% do território nacional, de acordo com o OSDH.
Desde o início de dezembro, cerca de 388.000 pessoas foram deslocadas por bombardeios aéreos e combates, segundo a ONU.
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu no sábado que cessasse “imediatamente” as hostilidades no noroeste da Síria e disse que estava “profundamente preocupado” com a escalada militar.
O conflito na Síria, iniciado quase nove anos atrás, já deixou mais de 380.000 mortos e milhões de deslocados e refugiados.
