Dâmocles, súdito de Dionísio, o rei de Siracusa na Grécia do século IV antes de Cristo, sempre dizia que o imperador era o homem mais feliz do mundo por ter nas mãos o destino do povo. Incomodado com a constante afirmação de Dâmocles, o rei resolveu proporcionar-lhe um dia no poder. Deu-lhe tudo: o trono, a coroa, o cetro e um banquete de encher os olhos. Entretanto, colocou uma espada, presa por um fio de crina de cavalo, sobre a sua cabeça. Assim, ele conseguiu mostrar a angústia do poder. Passados mais de dois mil anos, a situação continua a mesma. Para qualquer funcionário, os presidentes de empresas são como mitos. Símbolos do poder, felizes e intocáveis. Mas, como a história de Dâmocles ensina, as coisas nem sempre são como parecem. Alguns desses comandantes de empresas que faturam centenas de milhões de dólares, sofrem de um mal cada vez mais comum no mundo corporativo: a solidão do poder.

Para driblar esse incômodo que aflige os poderosos executivos, uma empresa americana chamada Renaissance Executive Forums promove reuniões de profissionais de primeira linha em que a ordem é desabafar. Pelo menos uma vez por mês, esses homens que enfrentam crises financeiras, disputas acirradas com a concorrência, pressão de acionistas, tiram a armadura e falam de seus conflitos e angústias. ?Quem está no topo da pirâmide geralmente guarda os problemas para si?, afirma Alcides Ribas, sócio da Renaissance Forums. Mais do que isso. Assim como o rei Dionísio, eles dormem e acordam com a sensação de ter uma espada sobre suas cabeças. O peso do poder é avassalador. Muitas vezes, não há a quem recorrer. À família? Aos funcionários? Aos acionistas? De repente, esses homens poderosos que se programaram para sempre vencer as batalhas percebem que não têm com quem contar.

?Na minha primeira reunião, eu percebi que esta solidão não é exclusividade minha. Outros executivos também têm o mesmo problema?, diz Michel Brull, presidente da Fotóptica. Pelas suas mãos passam o destino de 85 lojas espalhadas em São Paulo e pela região Centro-Oeste, que juntas faturam R$ 100 milhões por ano e empregam 750 funcionários. Segundo Brull, as reuniões têm ajudado na tomada de decisões. ?Eles me fazem enxergar melhor os problemas?, afirma ele.

Seleção. Mas não pense que qualquer pessoa pode entrar neste seleto grupo. Além de viver os conflitos de um homem de negócios é preciso ter outros requisitos. ?É necessário ser o principal profissional da empresa. Não aceitamos nem vice-presidentes?, diz André Kaufmann, do Renaissance. Além disso, o pretendente a vaga passa por uma batelada de entrevistas. Tudo é checado. São feitas várias perguntas e testes de análise comportamental para saber se a pessoa é extrovertida ou introvertida. Informações de mercado também são garimpadas para que exista certeza de que o novo integrante manterá em sigilo absoluto todos os temas das reuniões. No calor dos desabafos, segredos empresariais acabam sendo revelados. É preciso ainda receber o aval dos integrantes do grupo. Depois de aceito, a proposta é sacramentada com um pagamento de uma taxa de adesão de R$ 1,5 mil e mensalidades do mesmo valor.

Cada grupo conta com 12 pessoas. Nenhuma delas pode atuar em áreas conflitantes. Ou seja, são misturados executivos do setor de móveis, o do setor petroquímico, com o do setor de calçados e assim por diante. As reuniões sempre acontecem no escritório de um dos integrantes, das 8 às 13 horas. Nestes encontros, são ministradas palestras de assuntos como segurança empresarial, criatividade e outros temas de interesse do grupo. Depois, um dos participantes conta o seu problema e logo em seguida há um debate onde todos tentam encontrar uma saída. No fim do ano, um workshop de dois dias também é organizado para que seja avaliado o período que passou e estabelecer novas metas. ?É interessante conhecer o problema de outras empresas e saber como eles o enfrentam?, diz Anders Pettersson, presidente para a América Latina da York Refrigeration, companhia de refrigeração para indústria pesada. E o que é melhor, durante os encontros eles descarregam as tensões do mundo empresarial sem a menor culpa. ?Saio mais leve, pois sempre tenho a oportunidade de colocar as minhas aflições em pauta?, diz Gisela Heitzmann, dona de oito franquias da perfumaria O Boticário.