O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou  para a 13ª Vara Federal, em Curitiba, um dos depoimentos da delação  premiada do senador Delcídio Amaral (ex-PT-MS) que trata da Refinaria de  Okinawa, no Japão. A unidade foi comprada pela Petrobras por cerca de  US$ 72 milhões, de acordo com o senador, em 2008.

Delcídio  relatou à Procuradoria-Geral da República que a compra de Okinawa  ”seguiu o mesmo ‘modelo’ adotado para a refinaria de Pasadena, gerando  propinas para funcionários do alto escalão da Petrobras”. O pedido para  que a investigação sobre a unidade fosse mandada para a 13ª Vara, do  juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato na 1ª  instância, é da vice-procuradora-geral da República Ela Wiecko.

A  estatal comprou 87,5% da Nansei Sekiyu, nome da companhia que operava a  refinaria na ilha de Okinawa, no sudoeste do Japão. A Petrobras  informou em seu site que a refinaria tinha capacidade de processar 100  mil barris de petróleo leve por dia e produzir derivados de alta  qualidade e nos padrões do mercado japonês, além de contar com um  terminal de petróleo e derivados.

Apesar das  características ressaltadas, em março deste ano a Petrobras informou que  havia decidido “dar início a seu plano de saída de Okinawa”.

“O  plano prevê encerramento das atividades de refino da refinaria Nansey  Sekiyu (NSS). Para manter o abastecimento da ilha de Okinawa, a NSS dará  continuidade à atuação do terminal marítimo de carga até a finalização  do plano, que será conduzido em estreita colaboração com o METI  (Ministry of Economy, Trade and Industry) japonês. Durante todo o  processo, a Petrobras continuará a atuar de forma responsável e alinhada  às melhores práticas de responsabilidade socioambiental, comprometida  com a população de Okinawa e com sua força de trabalho local”, afirmou  em nota na ocasião.

Na delação, Delcídio citou o  ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, seu ex-chefe de  gabinete Armando Tripodi e o ex-diretor da área Internacional da estatal  Nestor Cerveró como envolvidos no esquema.

“O depoente  (Delcídio) acredita que o mesmo esquema de pagamento de propinas, já  investigado no caso Lava Jato, repetiu-se durante a compra da Refinaria  de Okinawa; que os desenvolvedores do projeto de compra da Refinaria de  Okinawa foram Nestor Cerveró, então diretor da Diretoria Internacional, a  equipe comandada por ele”, relatou.

“O presidente da  empresa, à época, era José Sérgio Gabrielli, o qual assentiu na compra;  que esclarece o depoente que o chefe de Gabinete de José Sérgio  Gabrielli, de nome Armando Tripodi, era o grande articulador interno  daquele presidente, atuando em nome do mandatário maior da Petrobras,  inclusive.”

De acordo com a delação de Delcídio, o negócio  ”foi tão desvantajoso que no ano passado a Petrobras encerrou as  atividades da Refinaria em solo japonês, alegando altos prejuízos na  manutenção da refinaria que não era rentável para a estatal”. A compra  da unidade tinha como objetivo aumentar a capacidade da estatal de  refino no exterior.

“O depoente não se recorda quem relatou  as ilicitudes levadas a efeito na Refinaria de Okinawa, mas se  compromete a fazer esforço para lembrar os respectivos nomes; que, no  entanto, adianta que pode ter sido alguém da área de abastecimento da  Petrobras”, afirmou o senador.

Compra

Parte  da aquisição foi aprovada em 2007 pela então presidente do Conselho de  Administração da Petrobras, Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil do  governo Lula na época. Em nota assinada pela Secretaria de Comunicação  do Palácio do Planalto e encaminhada em março de 2014 ao Estadão, Dilma  disse ter autorizado a compra de refinaria de Okinawa com base em um  ”resumo” elaborado pela diretoria internacional da Petrobras, na época  comandada por Nestor Cerveró, no qual “está referida a existência de  cláusulas contratuais que materializaram o Put Option, bem como as  informações técnicas correspondentes”. No caso da refinaria de Pasadena,  a presidente havia informado que o resumo que recebeu de Cerveró era  ”falho” e omitia condições do contrato como as cláusulas de Put Option e  Marlim (que garantia à sócia da Petrobras um lucro mínimo  independentemente da situação do mercado).

Delcídio  declarou aos procuradores que a compra da refinaria “foi uma ação  ilícita ‘entre amigos’ executada peles executivos da Petrobrás da  época”.

“Não houve envolvimento de agentes políticos nessa  transação; que ficou sabendo dessas informações através de Manoel  Guimarães, que era um executivo da Odebrecht que cuidava das refinarias  da empresa no exterior”, relatou o senador.

“O depoente não  sabe dizer se a Refinaria de Okinawa gerou prejuízos, tendo  conhecimento, apenas, que sua produção gira em torno de 40 mil barris  diários e que possui restrições ambientais severas.”

Em seu  site, a Petrobras informa que desde março de 2015 está fazendo “uma  mudança de modelo de negócio e operação da Nansei Sekiyu, tendo  encerrado as atividades de refino no ativo”. “A partir de abril de 2016,  passaremos a atuar em Okinawa como terminal marítimo. Os serviços  contemplam recebimento de produtos por via marítima, armazenagem,  manuseio, e entrega às empresas de distribuição japonesas”, afirma a  estatal.

A Petrobras e o ex-presidente da estatal José  Sérgio Gabrielli foram procurados pela reportagem, mas não retornaram ao  contato. A Secretaria de Comunicação da Presidência da República  afirmou que não irá comentar.