Por trás da tradicional porta de ferro maciço na entrada da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), um mundo de modernidade está escondido dos olhos do visitante. Ali, uma sala do segundo andar, recheada de servidores e microcomputadores, abriga um banco de dados com 3,5 bilhões de registros de transações de crédito de milhões de pessoas que, em algum momento, abriram um financiamento para adquirir uma televisão, um carro ou uma casa. É um retrato sem retoques da vida financeira e dos hábitos de consumo dos habitantes do País. Qualquer movimentação desses consumidores é detectada e registrada pela sala de controle da associação ? o que a transforma em uma espécie de Big Brother do sistema de crédito do mercado. Os arquivos são alimentados pelos cadastros das 25,6 mil empresas, entre lojas, instituições financeiras e prestadores de serviços. ?O empresário precisava confiar o cadastro dos clientes a uma entidade com credibilidade?, afirma Marcel Solimeo, economista e superintendente institucional da ACSP. ?A associação, então, centralizou esses dados e se tornou a fiel depositária dos registros.? Essa máquina de informações é a base do Serviço Central de Proteção ao Crédito, o SCPC, como ficou conhecido. Diariamente são feitas 2,5 mil consultas nos postos do SCPC e três mil via internet.

Arte: Humberto Franco
 
 
ARANHA (à esq.) E SOLIMEO A associação está pronta para o
cadastro positivo
 
Os arquivos da associação poderiam também tornar viável o chamado cadastro positivo, cuja criação depende da aprovação de um projeto de lei que hiberna no Congresso. No Brasil, a concessão de crédito é baseada no modelo restritivo, com a divulgação das informações negativas. Segundo Solimeo, de todas as consultas ao SCPC, 20% são negativas e as 80% restantes são ?positivas?, ou seja, não contêm nenhuma restrição na pesquisa de crédito. Em mercados mais desenvolvidos, como o norte-americano, o cadastro positivo mostra toda a trajetória de consumo dos cidadãos e não se limita a revelar os casos de inadimplência ou atraso no pagamento, como acontece no Brasil. Os americanos, inclusive, se inscrevem nesses escritórios para registrar seu histórico e obter facilidades na hora de pedir crédito. A ACSP já está preparada para a eventual aprovação do cadastro positivo pelos deputados. O armazenamento de informações teve início em 1996. Na época, os dirigentes da associação não sabiam o que fazer com aquele ?amontoado de informações?, mas resolveram guardar os primeiros 55 milhões. Ao atingir esse limite, decidiram ir um pouco além ? e nunca mais pararam até chegar aos atuais 3,5 bilhões. ?Nosso grande diferencial é a tecnologia da informação?, diz Márcio Aranha, superintendente geral da ACSP. ?Nosso investimento anual em informática é de R$ 25 milhões.? Desde 1999, os bancos de dados dos outros dois mil SPCs de 27 Estados foram concentrados em São Paulo, em uma única rede. O SCPC é considerado por muitos o vilão do crédito no País. Entretanto, se a ACSP não tivesse centralizado a informação do crediário, dificilmente a popularização dos financiamentos teria o atual fôlego. ?A troca de informações é a natureza da associação?, diz ele. ?Um mau serviço acarreta mais taxas de juros.?

 
 
3,5 bilhões de registros de transações de crédito estão nos arquivos da Associação Comercial