31/08/2001 - 7:00
Duzentos lavradores brasileiros podem acabar com os sonhos da segunda maior petrolífera do mundo, a Shell, de se tornar uma empresa ?eticamente correta?. Acusada de contaminar os arredores de sua fábrica em Paulínia, no interior de São Paulo, e causar intoxicação crônica à população local, a gigante holandesa po-de deixar de ser listada nos índices éticos das bolsas de valores, o FTSE4Good. Criado pela Bolsa de Londres, o índice reúne empresas que promovem o respeito ao meio ambiente. Em épocas politicamente corretas, a perda deste selo pode representar o fim de negócios bilionários e um arranhão profundo na imagem da empresa. ?Estamos avaliando o caso e a Shell poderá ser excluída do índice?, afirmou a DINHEIRO um porta-voz da bolsa, Craig Greaves. O índice será atualizado dia 18.
A acusação contra a Shell foi resultado de uma investigação que começou nos anos 80. Até o final desta semana, poderá ser transformada em uma ação pública contra a distribuidora. Não há como negar a contaminação. A Shell Química era a única empresa que fabricava o pesticida Aldrin no mundo. A empresa afirma que, desde 1994, vem tentando barrar o vazamento para o lençol freático que abastece de água a região. A Shell diz estar fazendo um programa de assistência nas chácaras. Mas a Prefeitura de Paulínia acusa a empresa de esconder informações dos moradores e não querer ajudar na sua remoção.
Independentemente do final, a história não sairá barato à Shell. Só na tentativa de restringir a contaminação, deverá gastar R$ 10 milhões. Soma-se a isso custas de advogados, exames médicos, fornecimento de água e a compra de alimentos dos lavradores. No sábado, 1º de setembro, a empresa anunciou a intenção de comprar os terrenos. ?Além dos valores gastos no gerenciamento da crise, teremos os custos de imagem?, diz Gilbert Lambsderg, vice-presidente da Shell Brasil. E aí reside a pior contaminação. ?Se não for estancada, a crise irá arranhar a imagem da distribuidora?, explica José Roberto Martins, consultor da GlobalBrand. A Shell tem a 77ª marca mais valiosa do mundo, cotada em US$ 2,8 bilhões. Para ser medido o impacto na marca, uma das metodologias é a mudança na percepção do consumidor sobre a empresa. Um exemplo clássico foi o caso de monopólio contra a Microsoft. No dia do julgamento, suas ações caíram US$ 18 bilhões. A gigante automotiva Ford também perdeu US$ 6 bilhões em valor por causa do fiasco no gerenciamento da crise com a Firestone. ?Ninguém pode dizer o quanto a Shell vai perder. Mas esses incidentes sempre prejudicam?, diz Alfredo Alves de Lima, presidente da Interbrand Brasil. O que vai acontecer com a Shell depende da sua atuação nas próximas semanas.