30/06/2006 - 7:00
?Pode me chamar de Jack.? Foi assim que John Welch, presidente da General Electric e CEO mais admirado dos Estados Unidos, apresentou-se a Mario Monti, responsável pela comissão antitruste da União Européia. No encontro, Welch tentava convencê-lo a aprovar a compra da Honeywell pela GE. Seria a maior fusão da história entre duas indústrias, num negócio de US$ 42 bilhões. Após a reunião, Monti, conhecido por seus fãs na Europa como Supermario, disse ter ficado impressionado com o carisma de Welch, mas confessou que o presidente da GE saíra desapontado da sua sala. Ao despedir-se, Monti apenas disse: ?Bye, Jack?. Desde então, já era previsível o desfecho do processo de fusão entre as duas empresas, que atuam no setor aeroespacial. A decisão foi oficializada na terça-feira, 3, vetando o negócio com o qual Welch pretendia encerrar, com chave de ouro, sua carreira na GE. Monti argumentou que a fusão seria prejudicial ao mercado, por praticamente monopolizar o fornecimento de motores para aeronaves nas mãos de uma empresa. A decisão foi histórica, pois pela primeira vez uma autoridade européia impediu a realização de um negócio entre duas companhias puramente americanas. É também um marco no processo de globalização, que acelerou os negócios de fusões globais, hoje superiores a US$ 1 trilhão por ano. ?A decisão mostra que, para os europeus, a concorrência é um valor sagrado e os consumidores têm direito a ter várias empresas disputando sua preferência?, diz o advogado Pedro Dutra, especialista na área antitruste. ?O caso revela que as companhias devem estar atentas às diversidades culturais e indica que a globalização não é um processo triunfalista dos Estados Unidos, pois há contrapesos na Europa?.
No governo americano, que já havia dado o sinal verde à concretização do negócio, a decisão de Monti foi mal recebida e gerou novas tensões diplomáticas. O secretário do Tesouro americano, Paul O?Neill, chegou a afirmar que Monti metia-se em assuntos fora de sua competência, embora a comissão tenha poderes para avaliar qualquer fusão de empresas com receitas superiores a US$ 225 milhões na Europa. Diplomatas americanos insinuaram que a decisão contra a GE seria uma forma renovada de protecionismo e que, em vez de proteger o mercado concorrencial ou os consumidores, Monti estava disposto a assegurar apenas a competitividade de empresas européias que também fabricam motores de aviação, como a francesa Thales e a britânica Rolls Royce PLC. Só que, ao anunciar sua decisão, Monti deu suas razões. ?A fusão resultaria em aumento de preços para os clientes, principalmente para as empresas aéreas?, afirmou. As mais afetadas, segundo Monti, seriam justamente as americanas, que temiam o processo de concentração de fornecedores e deram subsídios à comissão européia durante o processo de análise.
É por razões semelhantes que a comissão antitruste européia também decidiu analisar mais criteriosamente a compra da mineradora Caemi pela Vale do Rio Doce e pela japonesa Mitsui. A Vale é líder no mercado europeu e, juntamente com as empresas Billiton e Rio Tinto, passaria a controlar 80% do mercado mundial de minério de ferro, o que, segundo a comissão européia, pode vir a colocar em risco a saúde das siderúrgicas. No Brasil, a Vale torna-se praticamente monopolista com a fusão, mas o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o órgão encarregado de combater cartéis e oligopólios, não pode fazer muito. Sucateado,
o Cade sequer tem quórum para votar novos processos de concentração. Seu presidente, João Grandino Rodas, afirma que
isso não prejudica a análise de infrações à ordem econômica,
mas pouca gente acredita.