O que poderia ser uma rusga local entre investidores de um flat em São Paulo, o QI Intelligence, virou uma briga global com a presença de uma marca de peso: a Howard Johnson International (HJI), do grupo Cendant, a maior empresa de serviços dos Estados Unidos. Donos de alguns apartamentos no flat em Moema, bairro de classe média alta na zona sul, de São Paulo reclamam que a HJ Brasil ? que tem o direito de usar a marca Howard Johnson, presente em 500 hotéis e 14 países ? não incluiu o QI Intelligence na rede mundial de vendas da HJI, o que teria reduzido radicalmente as taxas de ocupação, em 2001. O contador René Junghans vai além. Empunhando uma metralhadora giratória, ele quer acionar até mesmo a corporação americana e tenta convencer os demais condôminos a empreender a luta entre Davi e Golias. Com tenacidade alemã e um certo destemor de processos, fala de fraudes, de premeditação em um suposto sucateamento do condomínio e investiga por que a marca Howard Johson do Brasil não foi registrada no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), o que a impede de remeter dinheiro para a HJI. Os acusados alegam que houve problemas de mercado ? o baixo retorno não seria um privilégio do flat QI Intelligence ? e falta de tempo para resolver casos como o registro no INPI. Mas negam qualquer ilegalidade.

Experiências. Acusações à parte, o fato é que a primeira experiência-piloto da Howard Johnson ? que quer lançar cinco hotéis em 2003 ? fracassou. A aventura em Moema só durou seis meses. A empresa MDA Hotéis, irmã siamesa da HJ do Brasil, assumiu o QI Intelligence em julho de 2001, com direito a uso da grife HJ na divulgação do flat. Mas a taxa de ocupação despencou. Em setembro, insatisfeitos até com a qualidade da limpeza e da comida, os investidores já decidiam que a gestão ia mudar novamente de mãos: ao contrário da MDA, a Tropical Hotéis, do grupo Varig, estava disposta a investir em melhorias. A Tropical assumiu o flat na última sexta-feira em meio a uma calorosa disputa entre Junghans, HJ (Brasil e International), o síndico e condôminos ? entre eles, o secretário da Segurança Pública do Estadoo, Saulo de Castro Abreu Filho.

Por enquanto Abreu não precisou ser chamado. O alemão Junghans empunha a bandeira da transparência. Alega que foi descumprida uma promessa da MDA ? cujos donos são os mesmos da HJ do Brasil ? de incluir o flat brasileiro no cadastro da Cendant, em uma rota com 15 milhões de hóspedes anuais. A dona da Interep Representações, Cíntia Rodrigues, única representante comercial da Cendant no Brasil, disse na quarta-feira à DINHEIRO que não conhecia um hotel com a marca HJ em São Paulo. ?Não tínhamos a obrigação de divulgar logo o flat?, diz um dos sócios da MDA e da HJ Brasil, Álvaro Augusto Fonseca. ?Junghans tenta denegrir a marca e a minha pessoa, com acusações que saem de sua cabeça.? Para o diretor da HJ International para a América Latina, Guilllermo Rocha, o caso é de responsabilidade da HJ Brasil. Mas acredita que o contador queira ganhar dinheiro da HJ às custas de problemas de mercado. Como uma ação nos EUA, porém, sai cara ? US$ 10 mil ?, Junghans precisa convencer os outros condôminos. Contra ele está o síndico Eugênio Soares, que propôs a entrada da HJ no QI Intelligence. ?Junghans deveria se preocupar com o futuro do flat?, diz Soares, dono de 27 dos 218 apartamentos. Outros moradores confessam-se desapontados com o desempenho da HJ Brasil, mas apostam na gestão da Tropical e não querem se arriscar em processos. Na quarta-feira, a ex-gerente Anna Virgínia Machado, ligada à MDA, despediu-se da seguinte forma do flat, após seis meses trabalhando no local: ?Não me lembro de nada do que aconteceu aqui?.