Representantes dos produtos GE Eletronics e Colamais, Renato Moulard e seus dois sócios tinham um problema sério em sua microempresa, a Flama Representações. Cerca de 70% dos custos do escritório em São Paulo eram provenientes da telefonia, numa desproporção de gastos totalmente irracional. ?Ouvi falar do sistema de telefonia pela internet e cheguei a usar o Skype por um tempo, mas não funcionou?, conta ele. Muitos de seus clientes não tinham o programa de comunicação de voz pela internet e nem sempre o computador deles estava ligado na hora necessária. ?Cinco meses atrás cheguei à Hip Telecom e minha conta caiu de R$ 900 para R$ 450 por mês?, diz Moulard. Pode parecer pouco, mas a redução de custo representa uma economia de R$ 5,4 mil no ano. É uma quantia e tanto para uma empresa do porte da Flama ou para qualquer dos milhões de brasileiros que faz careta toda vez que abre sua conta telefônica. É por isso que, desde seu lançamento, há pouco mais de dois meses, a Hip, de São Paulo, conquistou 12 mil clientes em todo País. A Taho, outra empresa que explora a chamada Voz sobre IP (VoIP), mas que ainda não oferece um número de telefone ao usuário, abocanhou outros 3,7 mil clientes em quase um ano de operação. E empresas como Primeira Escolha, Tmais, VoxFone, entre muitas outras, trilham o mesmo caminho do novo Eldorado da comunicações. Um amplo estudo da consultoria IDC sobre o assunto indica que já existem 2 milhões de brasileiros usando telefonia pela internet. A expectativa é que até 2009 este número dobre. ?Os benefícios dessa tecnologia resultarão numa mudança significativa no cenário das telecomunicações brasileiras nos próximos anos?, afirma Álvaro Leal, analista de mercado da IDC Brasil e responsável pelo estudo.

AE

Moulard, da Flama: ?O valor da conta de telefone da empresa caiu pela metade?
As concessionárias de telecomunicações já sentiram esse efeito na pele. No ano passado, a redução na receita das empresas de telefonia com ligações interurbanas e internacionais foi de R$ 2 bilhões. A estimativa do IDC é que, até 2009, 29% dos usuários residenciais e 36% dos corporativos migrem para a telefonia pela rede. O movimento é tão profundo que a Telefônica está testando seu sistema de VoIP para o consumidor final e deverá lançá-lo ainda no primeiro trimestre. Ela está de olho em sua base de assinantes de banda larga, que passou de 626 mil, em 2004, para 1,2 milhão no ano passado. A Telemar também está na mesma fase, enquanto a operadora espelho GVT e a empresa de TV por assinatura TVA já lançaram seus serviços. Na verdade, até agora elas ofereciam o serviço a grandes clientes corporativos, que têm facilidade para investir em projetos de tecnologia. Junto a elas, fornecedores de equipamentos como Cisco, Avaya e 3Com trabalham para vender a infra-estrutura digital necessária à operação da telefonia pela rede. ?Temos feito muitos eventos para os responsáveis pela tecnologia das empresas e o assunto que desperta mais interesse é, sem dúvida, voz pela internet?, diz Antônio Mariano, gerente da área de engenharia de sistemas da 3Com. ?Até 2007, esse mercado estará no auge?.

A grande mudança, no entanto, ocorrerá quando o sistema atingir em cheio as pequenas e médias empresas e os clientes residenciais. A maior dificuldade das companhias de telefonia VoIP, até o momento, tem sido explicar ao consumidor comum o que é o serviço. A Taho investiu US$ 15 milhões em 2005 e separou outros US$ 18 milhões para aplicar em propaganda, em 2006. ?Além de nos diferenciar dos concorrentes, temos de explicar em 30 segundos um sistema totalmente novo?, afirma Luiz César Fernandes, sócio da Taho. Outra empresa que tem investido pesado é a Hip Telecom, que gastou R$ 15 milhões na implantação do sistema e reservou R$ 30 milhões em verbas de marketing para o período entre julho de 2004 e junho de 2005. Com o aparelho vendido em lugares como Blockbuster e Submarino, a Hip é uma das poucas empresas autorizadas pela Anatel a oferecer um número de telefone para cada cliente. Isso significa que seu assinante não precisa ter um aparelho de outra operadora para receber as chamadas. Conseqüentemente, consegue redução ainda maior nos custos. O produto da Hip já inclui serviços como caixa postal, identificador de chamadas, transferência de chamada e teleconferência, que têm tarifação extra nas operadoras tradicionais. A empresa também oferece produtos como o cartão pré-pago para telefonia pela internet, similar aos vendidos nos Estados Unidos e Europa. Ambiciosa, a Hip pretende ter entre 30% e 40% desse mercado no médio prazo, o que significaria receita anual estimada em R$ 650 milhões, em 2008. ?Assim que o cliente entende o que é o serviço, ele compra?, afirma Paulo Humberg, presidente da Hip Telecom. ?Com uma redução do valor da conta telefônica em até 70%, não há quem resista.? Tal como é hoje, a telefonia pela internet já representa uma enorme mudança no modelo de negócios da telecomunicação, mas trata-se apenas do começo. As empresas da área já estão ensaiando passos como as ligações por celular pela internet. Com a licitação do sistema Wi-Max, previsto para ocorrer até março, a internet banda larga sem fio será acessível inicialmente em todas as cidade e no Brasil inteiro no médio prazo. Qual dos 86 milhões de brasileiros, donos de celulares, que não gostaria de receber a conta 70% menor?

Reality show da tecnologia: inscrições abertas

3Com em ação: banho de até R$ 50 mil na empresa sorteada

 

A 3Com quer provar que telefonia pela internet e internet sem fio não são um bicho caríssimo de sete cabeças. Para isso, bolou uma estratégia engenhosa. Baseada em reality shows como Extreme Makeover e Fashion Emergency, em que casas e pessoas são completamente transformadas, a companhia criou o 3Com Rescue. A 3Com sorteará uma pequena ou média empresa, entre as que se inscreverem em seu site, para dar um banho de tecnologia de até R$ 50 mil. Instalará telefonia pela internet, rede sem fio e dará treinamentos para seus funcionários. E, evidentemente, mostrará os resultados à exaustão. Desde que sejam positivos, é claro.