28/02/2026 - 9:00
O “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sofreu um revés da Suprema Corte do país em fevereiro, tema estampado no noticiário econômico incansavelmente nos últimos dias. Mas, nem por isso, vai ficar mais fácil para o Brasil – ou para qualquer outro país que negocie com o mercado americano. Pelo contrário.
O próprio governo Trump anunciou que não abandonará a estratégia de usar tarifas como instrumento para forçar acordos com os parceiros comerciais, conforme for o objetivo da Casa Branca. Ou seja, se o comércio global viveu cenário turbulento ao longo de 2025, a imprevisibilidade agora é turbinada.
Depois da decisão judicial, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa global de 15%, mas que foi aplicada inicialmente no patamar de 10%. Mesmo assim, há enorme incerteza generalizada. É que o governo Trump já disse que lançará mão de seções como a 232 e 301, ferramentas mais direcionadas do que as tarifas genéricas impostas com base na Lei de Poderes Econômicos Emergenciais (IEEPA), estas derrubadas pela Suprema Corte americana.
Uma das duas seções permite a imposição de tarifas por questões de segurança nacional e a outra possibilita aos americanos aplicarem as taxas se for apurada prática comercial desleal. Em suma, ambas mantêm o poder do presidente americano.

Em um primeiro momento, o novo patamar tarifário pode beneficiar alguns países especificamente. Um estudo da organização independente Global Trade Alert apontou Brasil e China como os maiores beneficiários de uma tarifa de 15%, com redução média de 13,6 pontos percentuais para os brasileiros.
Antes da decisão da Suprema Corte, havia a cobrança de tarifa média de 26,33% para produtos brasileiros, a 17ª maior do mundo. Os dois países são seguidos por Índia e Canadá. O cálculo foi feito, vale reforçar, antes que os americanos baixassem mais a tarifa, para os 10% válidos desde 24 de fevereiro.
Já a Câmara Americana de Comércio informou que 35% da pauta exportada pelos brasileiros teve tarifas reduzidas de 40% ou 50% para 10% ou zero. É parcela da pauta que representa cerca de US$ 15 bilhões.
Menor dependência dos EUA
Em meio a um cenário de difícil horizonte tanto para governos quanto para o setor privado, os mais recentes acontecimentos reforçarão o movimento de acordos bilaterais. Desde o ano passado, vários países buscam reduzir a dependência não só do mercado americano, como também da China.
O Brasil está nessa onda.
No âmbito do Mercosul, o Brasil poderá se beneficiar do histórico acordo comercial assinado em janeiro com a União Europeia e, isoladamente, acaba de fechar acordos de cooperação com a Coreia do Sul e a Índia. Este segundo é focado nas terras raras, os minerais que servem como matéria-prima para setores estratégicos como tecnologia e bélico – e com ele há intenção de reduzir também a dependência da China. Além de minerais críticos, o acordo com os coreanos envolve agricultura, tecnologia, medicamentos e intercâmbio educacional.
O movimento de países para contornar instabilidades contribuiu em especial para a ascensão da China em anos recentes. Será preciso observar, contudo, qual será o impacto, para os chineses, da movimentação dos acordos bilaterais, já que os países buscam não só fugir da política comercial americana, mas há uma nova realidade para formar tratados que considera a proximidade geopolítica.
Pesquisas recentes do McKinsey Global Institute evidenciam que o comércio de bens está caindo entre países geopoliticamente distantes. Na contramão, aproximam-se os que seguem a mesma linha política. Há leitura de que é o fim da globalização sem fronteiras e o início da formação de uma espécie de “redes de confiança”, onde o alinhamento político vale tanto quanto o preço do produto.
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Nesse meio está o esforço asiático e a bem-sucedida mudança de percepção obtida por marcas chinesas em relação à acessibilidade e à inovação junto a consumidores, conseguidas com experiências digitais intuitivas. A ascensão asiática aparece como resposta a um cenário de valorização do multilateralismo do comércio mundial como forma de contornar instabilidades.
Estudo sobre tendências globais de consumo para 2026 indica que a China deve exportar US$ 4 trilhões em bens e serviços globalmente neste ano. Desse total, US$ 128 bilhões serão comercializados por e-commerce. O movimento tem preocupado empresários latino-americanos, já que muitos produtos chegam mais baratos. A recomendação é investir em diferenciação, autenticidade, origem e confiança — atributos ainda não plenamente associados a muitas marcas chinesas recém-chegadas ao mercado regional.
Apesar de a presença chinesa se estender por ampla gama de setores, o movimento mais transformador hoje é ver o país deixar de ser apenas fornecedor de produtos para se tornar formador de tendências globais. As marcas chinesas começam a influenciar diretamente o gosto e o comportamento do consumidor, seja por plataformas digitais, seja pela construção de um novo desejo aspiracional em torno da própria cultura chinesa.
O avanço asiático é especialmente visível em categorias de consumo rápido, como alimentos, bebidas e vestuário, que se renovam constantemente e ocupam múltiplos momentos do cotidiano. Nessas áreas, empresas chinesas demonstram forte capacidade de lançar novidades em ritmo acelerado, captar tendências culturais e transformá-las rapidamente em produtos com tração.
Há ainda um segundo eixo de oportunidades em setores de alta tecnologia, onde a China já atua como potência global. Entre eles estão carros elétricos e ecossistemas digitais de serviços, além de investimentos em infraestrutura, energias renováveis e tecnologias de pagamento.
Essa tendência de acordos bilaterais já vinha crescendo com o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio, mas se intensificou desde o ano passado, quando países passaram a assinar diversos tratados comerciais. A Indonésia, por exemplo, assinou vários acordos recentemente. O mesmo ocorre com a Europa, que negocia com a Índia e fechou acordo com o Mercosul.
A Associação Europeia de Livre Comércio, que reúne Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, já havia firmado em setembro um tratado com o Mercosul. Os países fazem clara tentativa de depender menos do mercado dos Estados Unidos. Nesse cenário, possivelmente o Mercosul deverá avançar em negociações com Canadá e Emirados Árabes.
Contudo, um ponto que pode fragilizar a estrutura do bloco sul-americano é o posicionamento argentino. A Argentina acaba de fechar em fevereiro um acordo com os Estados Unidos que prevê redução de tarifas e investimentos recíprocos. Isso deve afetar principalmente a uniformidade da Tarifa Externa Comum do Mercosul.
As tarifas para o Brasil
Diante do novo cenário tarifário, o vice-presidente Geraldo Alckmin, também ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, viu oportunidade estratégica. Para ele, a decisão abre espaço para ampliar o comércio com os Estados Unidos. Embora o país seja o terceiro maior parceiro comercial em volume, é o principal em produtos industriais. Já a China compra majoritariamente commodities.

Especialistas ressaltam que é preciso analisar caso a caso, pois alguns setores que tinham tarifa zero agora pagarão 10%, embora a maioria tenha sido beneficiada.
O Brasil estava entre os países mais prejudicados pela política tarifária norte-americana iniciada em abril do ano passado, episódio chamado pelo próprio Trump de “Dia da Libertação”. Na ocasião, ele divulgou lista de tarifas para exportações de mais de 50 países, alegando desequilíbrio tarifário desfavorável aos consumidores americanos.
Inicialmente o Brasil teria tarifa de 10%, mas diversos setores passaram a sofrer sobretaxas de 40% a partir de agosto de 2025, quadro que mudou novamente ao final do ano após encontros entre Lula e Trump. Ainda assim, havia segmentos com sobretaxas válidas. Segundo a Global Trade Alert, a mudança levou o Brasil para a 125ª posição da lista global, com tarifa média de 12,77%.
O colosso de US$ 4 trilhões
O movimento de países para contornar instabilidades contribuiu em especial para a ascensão da China em anos recentes. Será preciso observar, contudo, qual será o impacto, para os chineses, da movimentação dos acordos bilaterais, já que os países buscam não só fugir da política comercial americana, mas há uma nova realidade para formar tratados que considera a proximidade geopolítica.
Pesquisas recentes do McKinsey Global Institute evidenciam que o comércio de bens está caindo entre países que são geopoliticamente distantes. Na contramão, aproximam-se os que seguem a mesma linha política. Há leitura de que é o fim da globalização sem fronteiras e o início da formação de uma espécie de “redes de confiança”, onde o alinhamento político vale tanto quanto o preço do produto.
Nesse meio está o esforço asiático e a bem-sucedida mudança de percepção obtida por marcas chinesas em relação à acessibilidade e à inovação junto a consumidores, conseguidas com experiências digital first e intuitivas para os consumidores.
“A ascensão asiática aparece como uma resposta a um cenário de valorização do multilateralismo do comércio mundial, como forma de contornar instabilidades”, disse Guilherme Machado, gerente de pesquisa da Euromonitor International à IstoÉ Dinheiro.
Estudo da Euromonitor sobre as tendências globais de consumo para 2026 indica que a China deve exportar US$ 4 trilhões em bens e serviços globalmente neste ano. Desse total, US$ 128 bilhões serão comercializados por e-commerce (quatro dos cinco principais varejistas globais são chineses). O movimento inclusive tem preocupado empresários latinos, já que muitos produtos chegam mais baratos por aqui.
A Euromonitor sugere que os empresários invistam em valorização de diferenciais e pontos fortes, destacando o que os concorrentes asiáticos não conseguem igualar com facilidade. Uma forma de se diferenciar é investir em autenticidade, origem e confiança, detalha Machado.
“São atributos que ainda não estão plenamente associados às marcas chinesas, muitas delas recém-chegadas ao mercado latino-americano. Vemos que consumidores estão mais atentos à história por trás das marcas e a comprovações de sustentabilidade”, afirma.
Apesar de a presença chinesa se estender por uma ampla gama de setores, o movimento mais transformador hoje é ver a China deixar de ser apenas uma fornecedora de produtos para se tornar uma formadora de tendências globais. As marcas chinesas começam a influenciar diretamente o gosto e o comportamento do consumidor, seja por meio das plataformas digitais, com destaque para o TikTok, seja pela construção de um novo desejo aspiracional em torno da própria cultura chinesa.
O avanço asiático, reforça Machado, é um fenômeno especialmente visível nas categorias de consumo rápido, como alimentos, bebidas e vestuário, que se renovam constantemente e ocupam múltiplos momentos do cotidiano. “Nessas áreas, as empresas chinesas têm mostrado forte capacidade de lançar novidades em ritmo acelerado, captar tendências culturais e transformá-las rapidamente em produtos que ganham tração”, disse.
Há ainda um segundo eixo de oportunidades que passa por setores de alta tecnologia, onde a China já atua como potência global. Entre esses setores, podem ser citados os carros elétricos, liderados por empresas como a BYD, e ecossistemas digitais de serviços, como apps de delivery. Entre eles, o recém-chegado Keeta, concorrente do iFood, e investimentos em obras de infraestrutura, energias renováveis e tecnologias de pagamento.
