EMBORA AS agências de risco continuem a se prender a detalhes para não promover o Brasil ao grau de investimento, os grandes players internacionais trabalham com critérios menos subjetivos e há muito tempo puseram o País entre suas prioridades. Tanto o Brasil é a bola de vez que os investimentos estrangeiros vão bater recorde este ano, superando US$ 35 bilhões. A marca anterior, de US$ 32,7 bilhões, foi obtida em 2000, mas inflada pelo programa de privatizações. Hoje, as aplicações são disseminadas e espalham- se por todos os setores da economia. ?Essa é uma característica nova, a meu ver bastante positiva?, ressalta o chefe do departamento econômico do Banco Central, Altamir Lopes. Para quem, apesar das evidências, duvida do interesse crescente por negócios no País, recomenda-se uma consulta à agenda restrita da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Não passa semana sem que Dilma receba em seu gabinete, no 4º andar do Palácio do Planalto, empresários estrangeiros de peso. Eles vêm de várias origens. De Portugal, da Espanha, da França, da Itália, dos Estados Unidos e da Índia, entre outros. Na última semana de dezembro, a própria assessoria da ministra ficou espantada quando bateram à porta altos executivos da Coréia do Sul. Na agenda um tema recorrente: o cronograma do PAC e as melhores oportunidades de investimento em terras brasileiras.

Dilma tem mostrado o mapa da mina aos que pretendem aqui se instalar. Os franceses da Suez Energy, por exemplo, tornaram-se freqüentadores assíduos do Palácio do Planalto. Não por acaso assumiram o posto de maior grupo privado na área de energia através da Tractebel, que opera seis usinas hidrelétricas e sete térmicas, um parque gerador de 6.977 megawatts. Em dezembro, depois de seis meses de negociação, compraram a hidrelétrica Ponte de Pedra, da italiana Impregilo, por R$ 592 milhões. E não pretendem ficar por aí. A Suez está construindo as hidrelétricas de Estreito e de São Salvador e garante que vai entrar na disputa por Jirau, a segunda unidade do rio Madeira, e pelos 33% da Cesp, que o governo José Serra pretende vender. ?Nossa estratégia é crescer e consolidar nosso parque gerador?, afirma Maurício Bähr, presidente do braço brasileiro da Suez Energy, o quarto maior grupo de energia do mundo depois que se fundiu com a estatal Gaz de France.

A exemplo dos franceses, os espanhóis da OHL também não resistiram às oportunidades altamente lucrativas que a economia brasileira está oferecendo. Incentivada pela ministra da Casa Civil, a OHL não só decidiu ampliar sua participação na concessão de rodovias como inaugurou uma nova realidade na administração de pedágios. Em outubro, saiu vencedora na licitação de trechos vitais, como a Régis Bittencourt e a Fernão Dias, ao se comprometer com pedágios inferiores a R$ 1. A empresa terá de investir R$ 16,7 bilhões nos próximos anos, mas passou a ser a maior concessionária do País, com 3.225,8 km. Para os que consideram o pedágio inviável, o presidente da OHL, José Carlos Ferreira, tem a resposta pronta: ?O Brasil vai continuar a crescer e o volume de tráfego nas estradas também. Nossos acionistas terão a remuneração adequada.? Outro grupo estrangeiro que aposta na multiplicação de cargas e veículos é o italiano Impregilo. Apesar de ter se desfeito da hidrelétrica Ponte de Pedra, o grupo sediado em Milão mantém firme sua posição de 35% no capital da Primav Ecorodovias, que detém a concessão da rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, e do Caminho do Mar, que liga Curitiba ao porto de Paranaguá.

Os grupos estrangeiros não fazem segredo sobre os investimentos realizados. Difícil é arrancar deles informação sobre novos projetos. Os espanhóis da OHL explicam que só voltarão a falar depois que assinarem o contrato com a União em fevereiro. No caso da Impregilo, a empresa projetou o trem-bala Rio-São Paulo, que pode movimentar US$ 9 bilhões. Na siderurgia, o indiano Lakshmi Mittal, dono da CST, decidiu investir US$ 5 bilhões até 2012. Sinal de que o Brasil é cada vez mais cobiçado.