08/06/2005 - 7:00
Chove pesado na primavera européia. Raios e trovoadas balançam o euro, a moeda única que, desde janeiro de 2001, une doze países do continente e alimenta as esperanças de outros 13, na Europa dos 25. Na semana passada, a moeda européia comprava 1,223 dólar, a menor cotação em oito meses, em uma queda de quase 10% apenas em 2005. A turbulência é o primeiro resultado de uma semana histórica às avessas. No domingo, 54% dos franceses disseram ?non? à Constituição Européia, calhamaço de 448 artigos que precisaria ser aprovado por todos os membros da comunidade.
Na quarta-feira, 61,6% dos holandeses cravaram o ?nein?. Não é, naturalmente, o fim do euro, e muito menos da Europa unificada ? mas trata-se da mais grave crise desde que, em 1957, formou-se o Mercado Comum Europeu. ?A perenidade da moeda européia está em jogo?, disse à DINHEIRO Elie Cohen, diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. ?As diferenças de crescimento dos países na zona do euro é gritante, e essa heterogeneidade induz à paralisia econômica, à uma freada brusca?. Palavras de um especialista como Cohen ajudam a iluminar o drama atual, e são apenas didáticas. Quando pousam na boca de autoridades monetárias, porém, explodem com estardalhaço. Foi o que ocorreu com o relato de uma reunião em Berlim divulgado pela revista alemã Stern. Debaixo do título, ?O Euro está nos destruindo?, a reportagem tratava de uma reunião sigilosa das maiores autoridades financeiras da Alemanha. No encontro, eles teriam dito que as diferenças de juros e de patamar econômico das nações européias terminaria por enterrar a moeda comum. E mais: teriam afirmado que o fim do marco alemão foi uma tragédia, e ele precisaria ser retomado. A reportagem, negada depois pelo governo de Gerard Schröder, produziu ainda mais estragos que a consulta popular.
A semana foi tão ruim que todas as negativas caíram no vazio, e o que se discutia era o futuro da Europa como gigante econômico. O ?não? francês, à direita, representou um lance de xenofobia, contra a entrada da Turquia na comunidade e o ingresso de imigrantes do Leste, representados por um personagem já apelidado de ?encanador polonês?, o sujeito de um país mais pobre afeito a receber 30% a menos para trabalhar mais. O preconceito, pueril, não pode ser levado a sério. O que realmente acelerou a negativa, e foi essa a postura dos partidos de esquerda, vitoriosos, foi a preocupação dos franceses com as conquistas sociais e o medo do desemprego. Para usar uma velha frase de um assessor político de Bill Clinton ao responder qual deveria ser o mote de toda campanha política, ?é a economia, estúpido?. O desemprego na Europa é de 8,9%, diante de 5,8% nos Estados Unidos. Para efeito de comparação, no Brasil ele está na casa dos 9,4%. Na França, chega a 9,8%. Uma pesquisa encomendada pelo jornal Le Monde mostrou que a preocupação com a perda de emprego, com 46% das citações, liderou a motivação pelo protesto que derrubou o primeiro ministro e enfraqueceu o presidente Jacques Chirac.
A tese de perda dos benefícios sociais dos países, mergulhados numa constituição ancorada no liberalismo econômico e no salve-se quem puder da globalização, deu o tom dos sindicatos. As vantagens sociais vigoram na Europa há 60 anos. Em nome da concorrência comercial, a União Européia tenderia a flexibilizar os direitos trabalhistas. Aos líderes sindicais, somaram-se vozes ainda mais influentes. ?Não se pode competir com a China, a Índia e outros países cujos salário são dez vezes menores. Uma globalização baseada em salários muitos diferentes só consegue produzir greves e redução do crescimento nos países desenvolvidos?, disse Maurice Allais, Prêmio Nobel de economia em 1988. Quando o povo é chamado a dizer o que acha do que está sendo feito com seu bolso, ele reclama. O problema é que o povo a dizer ?não?, antes de todos os outros, foi o francês ? e sem a França, mãe da idéia de uma Europa unida, nada mais pode seguir em frente. O próximo desafio é esse. ![]()