17/11/2000 - 8:00
Os avós de Elda tinham contato com o mundo por meio do Rio Miranda, caudaloso afluente do Paraguai, localizado no sul do Pantanal. Ao pé da Serra da Bodoquena, 120 quilômetros distante da fronteira do País com a Bolívia, estão três aldeias terenas. Neste mês, a comunicação dos descendentes dos primeiros índios destas margens com o resto do planeta viveu uma revolução. Um salto tecnológico gigantesco foi dado na paisagem composta por jacarés e capivaras. Algo comparado, talvez, à confecção das canoas. A índia Elda Salvador Moreira, de 20 anos, e outros 49 jovens terenas, já navegam nos canais virtuais da Internet com a desenvoltura e a curiosidade de seus ancestrais. Em breve, terão até uma página na rede. Os 50 computadores e a conexão via satélite, que liga os confins do Brasil à Web, são a mais recente novidade da escola agrotécnica da Fundação Bradesco, instalada na região, a 57 quilômetros da cidade de Miranda. O internato de 1.100 alunos, a maioria filhos de lavradores e pescadores, funciona como casa e sala de aula para a minoria terena.
Vislumbre do falecido fundador do banco, Amador Aguiar, a escola no Mato Grosso do Sul é uma fazenda modelo de 775 hectares. Já está conectada às outras 36 escolas mantidas pela Fundação em 24 Estados. No início do ano que vem, será inaugurada a de Rio Branco (AC) e depois a escola de Roraima. ?Gosto de procurar notícias e ler fofocas na Internet?, conta Elda, índia que fala o idioma terena, da família linguística aruaque. Em dezembro, ela vai se formar professora pela Fundação e passará a colaborar com o conteúdo do site www.fundacaobradesco.org.br. ?A Internet pode ajudar a resgatar a cultura indígena?, observa ela. A entidade destina R$ 100 milhões por ano para programas educacionais que atendem a 100 mil jovens. É o maior investimento social de instituição filantrópica no País. Nos últimos três anos, foram investidos R$ 5 milhões só em tecnologia. Para conectar os alunos da Bodoquena à Web gastou-se R$ 150 mil. ?O projeto está apenas começando. As possibilidades da Internet são imensas neste setor?, avalia Nivaldo Tadeu Marcusso, de 39 anos, diretor de tecnologia da Fundação. ?Vamos promover um chat em 2001 com os índios de oito regiões do País.? O bate-papo tribal vai reunir índios das escolas de Manaus, Cuiabá, Conceição do Araguaia e de Canuanã, no Tocantins, onde os javaés ainda vivem em ocas.
Preconceito. No Mato Grosso do Sul e em São Paulo, vivem 19 mil terenas, segundo dados da Funai. Trata-se de população com língua e costumes próprios. Elda conta que jovens terenas, temendo o preconceito da sociedade, procuram esconder a origem indígena. Dificuldades de adaptação transformam adultos em vítimas do alcoolismo. Motivo de discriminação. Mas a realidade virtual poderá mudar tudo isso. Com o apoio da Fundação, uma nova geração de terenas navega orgulhosa e zelosa de sua cultura nos canais virtuais. Elda, Ionete Salvador, 14 anos, e Josiel de Souza, 15 anos, seguem à frente das primeiras incursões. Querem divulgar os costumes e debater os problemas da tribo. A Internet faz dos terenas uma aldeia global.