25/08/2001 - 7:00
Você teria coragem de aplicar R$ 100 mil no mercado imobiliário, sem poder colocar as chaves do imóvel no bolso? Antes de responder, saiba que como prêmio estaria isento do imposto de renda, mesmo ganhando acima da caderneta de poupança. E mais, também não pagaria a taxa de administração, que é cobrada de praxe nos fundos de investimento. Se agora acha que o negócio começou a ficar interessante, você não é o único. O número de investidores que aplicam em letras hipotecárias ? títulos dos bancos lastreados nos financiamentos habitacionais ? é crescente. No ano passado, quando a CEF (Caixa Econômica Federal) lançou a aplicação, apenas 110 clientes toparam ingressar no negócio. Agora, o número disparou para 17 mil operações individuais e 34 mil institucionais, movimentando cerca de R$ 10 bilhões. Todos foram atraídos pela possibilidade de potencializar os ganhos, sem colocar o patrimônio em risco.
Apesar do nome complicado provocar um certo receio, as letras hipotecárias são aplicações sob medida para os investidores com perfil conservador, os mesmos que aplicam em fundos de renda fixa ou diretamente em imóveis. O lastro hipotecário é o segundo menor risco do mercado financeiro, perde apenas para as aplicações atreladas a títulos da dívida pública. ?Esse tipo de investimento é indicado até mesmo como proteção do portfólio. A principal vantagem é que por não ter custos, o lucro pode superar as aplicações de renda fixa que acompanham o CDI (Certificado de Depósito Interbancário)?, afirma Valdery Albuquerque, diretor de financiamento da Caixa Econômica Federal.
Só que no item liquidez, os papéis de crédito hipotecário perdem para os fundos de renda fixa. Isso porque o prazo dos contratos da aplicação é de seis meses e vai até dois anos. Não há como fazer o resgate antecipado. Já nos fundos, a rentabilidade é diária, vencido o período de carência de no máximo 90 dias. ?O custo da aplicação em letras hipotecárias é a falta de liquidez?, pondera Pino Marco Di Segni, assessor de investimentos da Heding Griffo.
O valor investido também faz diferença. As aplicações iniciais são a partir de R$ 300 mil na Caixa Econômica. Alguns bancos que distribuem os títulos, como a Nossa Caixa, não determinam o mínimo. ?Indicamos para cliente private?, diz Natalino Gazonato, gerente do departamento de crédito da Nossa Caixa. A economia com a isenção fiscal faz mais diferença nas maiores quantias. Em valores mais baixos, o porcentual descontado dos tributos não causa tantos estragos, porque levará uma quantia menor. Dessa forma, é compensado pela possibilidade de liquidez diária, como os fundos DI.
Agora, se você se encaixa nesse perfil de investidor conservador e não precisa do dinheiro no curto prazo pode incluir as letras hipotecárias como opção às aplicações convencionais de renda fixa. Para comprovar as vantagens, o diretor da CEF fez as contas comparativas. Entre janeiro e junho, quem aplicou R$ 1 milhão num CDB pré-fixado de 30 dias que paga 100% do CDI saiu com R$ 1.038 milhão, descontados os 20% de Imposto de Renda mensal e a CPMF. Já quem colocou quantia igual nas letras hipotecárias, que paga 85% do CDI, levou R$ 1,058 milhão. Só pagou o tributo pela movimentação financeira.
Com a diferença, potencializou R$ 20 mil nos ganhos. Para tornar o negócio mais atrativo, uma boa conversa com o administrador pode te livrar da CPMF. Algumas instituições têm o reembolso. Ainda são poucos os bancos que oferecem as hipotecas dos financiamentos imobiliários como opção de investimentos. Fora a CEF, há a Nossa Caixa e o Banco Safra. Mas, isso não é entrave para quem quer lucrar em cima dos financiamentos para a compra de imóveis. A CEF faz leilões para os bancos comprarem os títulos e repassarem. ?A letra hipotecária tem lugar garantido no portfólio dos grandes clientes?, diz Albuquerque.