26/02/2003 - 7:00
A Microsoft não é mais suficiente para Bill Gates. A fortuna do homem mais rico do mundo, estimada em mais de US$ 50 bilhões, é engordada por receitas de outras companhias, que vão da hotelaria à biotecnologia, passando por transporte e gás. Gates é dono, por exemplo, de quase 20% da rede de hotéis de luxo Four Seasons. São 57 hotéis e resorts, dos quais 21 estão entre os melhores do mundo. Em seus restaurantes, circulam todos os magnatas e grandes executivos americanos. Muitos deles com cadeiras cativas em seus salões, como Donald Trump e Henry Kissinger, ex-secretário do governo. Mas não foi o requinte dos hotéis nem o número de poderosos pelo saguão que encantaram Bill Gates. Mesmo com diárias que custam no mínimo US$ 500, o Four Seasons não pára de crescer. ?Em dez anos, nós dobramos de tamanho. Vamos manter esse mesmo ritmo nos próximos sete anos?, afirma Kathleen Taylor, presidente do Four Seasons. Apenas em 2003, a rede terá mais nove endereços. O valor de mercado da companhia deve ultrapassar US$ 1 bilhão. O homem mais rico do mundo então poderá vender suas ações com um lucro considerável.
Esse modelo de negócio é repetido em escala. Gates tem participação em pelo menos 18 outras empresas e em dois fundos de investimento. Tudo isso por meio da Cascade LLC, companhia que fundou em 1995 para gerenciar cerca de US$ 10 bilhões de sua fortuna pessoal. O quartel-general da Cascade é um pequeno escritório em Washington. Mas Bill Gates não é visto por lá. O comando está nas mãos de uma figura pouco conhecida em Wall Street, o executivo Michael Larson. Apenas uma pequena parte dos negócios da empresa é pública. Por pertencer a um único dono, Larson se vale do benefício de manter a maior parte dos investimentos em sigilo. ?Quero manter a privacidade do meu cliente?, justifica ele. Larson acaba usando a mesma desculpa para negar os pedidos de entrevista.
Apesar de tanta discrição, os analistas de mercado têm certeza de que a Cascade gerencia um fundo conservador de ações. Larson assume que realmente prefere os investimentos de longo prazo. Há anos, por exemplo, ele é fã do setor de transportes. Desde o início, mantém cotas da Canadian National Railway, uma companhia avaliada em US$ 8 bilhões e que fechou 2002 com faturamento de US$ 6 bilhões, 8% a mais que no ano anterior. As outras empresas do ramo são a Alaska Air Group e o estaleiro Newport News, que juntas faturam quase US$ 7 bilhões.
Bill Gates também é veterano no quadro de acionistas da Nextel, operadora de telefonia celular que conseguiu picos de crescimento de até 85% no mercado americano no ano passado. Outra paixão são as empresas de utilidade pública. O portfólio tem pelo menos três: Otter Tail, de transmissão de energia; Avista, geradora de energia e distribuidora de gás natural; e a Public Service of New Mexico. Mais recentemente, o fundador da Microsoft passou a apostar também nas companhias de entretenimento, como a Six Flags, que gerencia parques temáticos em todo o território americano, e a Cox Communication, operadora de TV a cabo e
redes de banda larga.
A grande ousadia da carteira de investimentos da Cascade fica mesmo por conta das empresas de biotecnologia. Três delas são conhecidas, a Pain Therapeutics, a inglesa Icos e a Seattle Genetics. A primeira ainda é uma pequena empresa de biotecnologia da Califórnia, que desenvolve analgésicos de última geração a partir do ópio. A Seattle Genetics já tem vários medicamentos contra o câncer em teste. A Icos foi a que obteve maior sucesso. Fechou uma parceria com a gigante Eli Lilly para lançar o Cialis, concorrente do Viagra. Para todas elas, ter Gates como acionista foi fundamental. Bastava saber que ele apostava na empresa para despertar o interesse de outros investidores por suas ações. E não foi sem razão. Num ano em que as bolsas de valores de todo o mundo acumularam quedas, a Cascade conseguiu uma valorização de 18% de sua carteira em 2002