NO DECORRER DOS SÉculos, o touro se transformou no principal símbolo da cultura espanhola. Representa força, coragem, fertilidade e prosperidade. Durante os dias negros da crise financeira atual, as instituições bancárias da Espanha pareciam reproduzir o papel do animal dentro do cenário econômico. Sólidas, soberanas, quase inatingíveis. No entanto, os ventos mudaram de direção na península ibérica. O FMI e o Banco de Espanha (banco central) afirmaram no mês passado que o país, que até então não havia sido fortemente atingido pelos efeitos da crise internacional, estava em um iminente caminho rumo à recessão. O urso, símbolo dos mercados de ações em períodos de baixa, invadiu a arena. Os toureiros Emilio Botín, presidente do Santander, e Francisco Rodriguez, presidente do BBVA, já preparam suas armas para enfrentar os dias difíceis de 2009.

O Santander concluiu em 30 de novembro uma capitalização poderosa, de ? 7,2 bilhões, ofertando 1,6 milhão de ações. Totalmente subscrita, a operação elevou o capital do maior banco privado espanhol ? e dono do Banco Real no Brasil ? num momento crítico, em que os mercados de ações assistem à fuga dos investidores em papéis de bancos. Assim, Botín mostrou que dinheiro e confiança dos acionistas não faltam para enfrentar o urso. Como, aliás, fez o Citibank nos Estados Unidos, numa escala dez vezes maior, o que permitiu a sua continuidade enquanto outros concorrentes levaram a pior. Os investidores espanhóis não esperavam a chamada de capital do Santander e ficaram assustados. As ações caíram em vez de subir. ?A emissão inesperada gerou dúvidas. Foi uma operação negativa para os antigos acionistas, pois diluiu a participação dos que não acompanharam a oferta?, avalia Guillermo Escribano, diretor da gestora espanhola Metagestión. Mesmo assim, Escribano vê o lado bom da notícia: é uma forma de fortalecer o banco para dias mais duros. Os gigantes bancários espanhóis não ficaram parados na arena. ?Tanto o BBVA quanto o Santander estão perfeitamente preparados para a recessão. Diferentemente de outros bancos locais menores e mais agressivos, que se encontram em pior situação. A política de controle de risco dos dois bancos foi muito rígida?, explica.

? 7,2 BILHÕES FOI O AUMENTO DE CAPITAL INESPERADO DO SANTANDER

O BBVA não prevê aumento de capital, mas também não descarta essa possibilidade. O presidente Francisco Rodriguez também deposita na América Latina boa parte de suas fichas para compensar os dias sombrios na Espanha. ?A região será uma das poucas no mundo a ter crescimento positivo acima de 2% em 2009?, afirmou Rodriguez, em Madri, em outubro, durante uma apresentação aos acionistas. Para enfrentar o urso, o BBVA lançará produtos de apoio à situação financeira das empresas e das famílias espanholas. ?Se o cliente transferir sua hipoteca ao BBVA, tera uma devolução de ? 200 ao mês. Também será devolvida a alta da inflação das contas de água, luz, gás, telefone, internet e tevê a cabo?, disse à DINHEIRO Ana Rubio González, economista-chefe do BBVA em Madri. Apesar da inadimplência crescente no crédito, para 2,54%, Ana acredita que as instituições conseguirão manter o equilíbrio de caixa. ?As operações não- pagas poderão ser renegociadas em período de ciclo negativo?, diz. Toda cautela será pouca para o combate na crise. A recessão não dava as caras nas terras de Cervantes há tempos. Para o FMI, os 15 anos consecutivos de crescimento terminaram e a economia do país deverá retroceder 0,2% em 2009. Com certeza, é um resultado ruim ? mas não chega a ser um banho de sangue.