Os europeus manifestaram nesta quarta-feira preocupação após as revelações de um relatório do Conselho da Europa, envolvendo o primeiro-ministro kosovar, Hashim Thaçi, sobre tráfico de órgãos de prisioneiros sérvios no final dos anos 1990.

A porta-voz da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, convidou nesta quarta-feira o relator do Conselho da Europa, Dick Marty, a apresentar provas a sua disposição na Missão Europeia de Polícia e de Justiça em Kosovo (Eulex).

“Nós levamos todas as alegações relativas ao crime organizado e aos crimes de guerra muito a sério”, disse a porta-voz, Maja Kocijancik.

A Anistia Internacional pediu também que a Eulex abrisse uma “investigação imediata sobre o suposto envolvimento” de Hashim Thaçi “no sequestro após a guerra (de 1998-99) de sérvios e albaneses” do Kosovo para a Albânia.

As revelações de Marty ocorreram algumas horas depois do anúncio, feito na segunda-feira à noite pela Comissão Eleitoral Kosovar, que Hashim Thaçi e seu partido estavam na frente nas eleições legislativas de domingo.

O governo kosovar reagiu vivamente na noite de terça-feira, mencionando “invenções” com “objetivo de desonrar o UCK e seus dirigentes”.

Segundo um jornalista independente do Kosovo, que preferiu não ter o nome divulgado, trata-se do principal revés já sofrido por Hashim Thaçi.

“Ele poderá sobreviver à provação localmente, mas imagino que será difícil dirigentes ocidentais sorrirem para fotos ao lado dele a partir de agora”, disse à AFP.

As revelações do Conselho da Europa podem complicar a intenção de Hashim Thaçi em formar um novo governo de coalizão.

Elas trazem maus presságios também para o futuro diálogo entre Sérvia e Kosovo que os europeus tanto desejavam para solucionar a situação entre Belgrado e Pristina, desde a independência do Kosovo, em 2008.

Do lado sérvio, a satisfação era grande após o relatório de Dick Marty.

O Procurador sérvio para crimes de guerra, Vladimir Vukcevic, falou de uma “grande vitória da verdade e da justiça”. Já o ministro sérvio das Relações Exteriores, Vuk Jeremic, questionou o “futuro” de Hashim Thaçi.

O relatório de Dick Marty aponta para um grupo de dirigentes do Exército de Libertação do Kosovo (UCK), movimento pela independência kosovar albanês, que teve “responsabilidade primária” na gestão de centros de detenção da UCK na Albânia, durante a guerra, e, também, na “decisão do destino dos prisioneiros detidos”.

Este grupo é identificado como “Drenica”, que foi dirigido na época por Hashim Thaçi, então, jovem dirigente da resistência.

Ainda segundo Marty, uma outra “personalidade da UCK”, Shaip Muja, estaria por trás da “retirada forçada de órgãos” de prisioneiros da UCK, principalmente sérvios, “para o tráfico”.

O relator descreveu “centros de detenção provisórios” na Albânia, “aparentemente controlados por agentes e auxiliares da UCK próximos ao ‘grupo de Drenica'”, para onde os prisioneiros vindos do Kosovo eram levados antes de serem entregues “à clínica que praticava a cirurgia”.

“As análises dos serviços de inteligência da Otan, assim como os serviços de quatro governos estrangeiros independentes, constataram um fato irrefutável (…): Thaçi era habitualmente definido e designado nos relatórios dos serviços secretos como o mais perigoso dos ‘chefões do submundo’ da UCK”, segundo o documento.

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