30/11/2001 - 8:00
Acabou o combustível da Transbrasil. Na segunda-feira 3, a companhia aérea anunciou a ?paralisação de suas operações por tempo indeterminado?. Sem dinheiro em caixa e com dívidas de R$ 910 milhões, a empresa não conseguiu honrar mais um compromisso, entre tantos que deixou em branco este ano. Desta vez, o calote foi no pagamento de querosene de aviação para a Shell. A multinacional não perdoou e cortou o fornecimento. ?Até que a Transbrasil pague o valor devido?, diz um comunicado da distribuidora. Com o tanque dos aviões na reserva, a companhia do arco-íris foi obrigada a embarcar seus passageiros em aeronaves rivais. Até a segunda-feira 10, Gol, Varig e TAM transportaram 100 mil clientes. Com um detalhe: eles foram obrigados a pagar novamente as taxas de embarque e de segurança dos aeroportos. Senhoras e senhores, apertem os cintos. A Transbrasil está em queda livre.
O episódio do combustível era a única coisa que faltava para a combalida companhia colocar as travas nas rodas de seus aviões e passar o cadeado nos hangares. Há um ano, a Transbrasil vem sofrendo seguidos problemas financeiros e administrativos. Em agosto, foi parar nos tribunais com um pedido de falência requerido pela GE Capital. Devia parcelas de pagamento de leasing de aeronaves. Aviões chegaram a ser confiscados. Graças a uma liminar, a empresa conseguiu voltar para a pista de decolagem. Os papagaios se acumularam com fornecedores de peças, prestadores de serviços, salários, impostos. O pane nas finanças refletiu diretamente no mercado: de julho a outubro deste ano, a participação da empresa no ranking da aviação civil caiu pela metade: de 10% para 5,6%.
No dia seguinte à paralisação, funcionários da companhia, com salários atrasados desde setembro, protestaram no aeroporto de Congonhas em São Paulo. O Sindicato dos Aeronautas também entrou com uma ação na Justiça para pedir o bloqueio dos bens da companhia e de seus sócios. Espera, assim, conseguir recursos para o pagamento de R$ 25 milhões das dívidas trabalhistas. O problema poderia ser resolvido com a venda das três aeronaves 767-200 da empresa. Em bom estado, valem cerca de US$ 60 milhões. Só que este ativo, segundo fontes do setor, já está comprometido. É a garantia de parte dos débitos com o INSS. O governo alega que o rombo é de R$ 500 milhões. A Transbrasil insiste em R$ 200 milhões. De qualquer forma, os aviões não poderiam ser usados para quitar passivos trabalhistas. A menos que a Justiça diga o contrário.
Diante do impasse, o presidente da Transbrasil, Antônio Celso Cipriani ?
genro do fundador Omar Fontana ? resolveu agir. Às 15h30 da terça-feira 4, Cipriani foi a Brasília pedir ao governo a liberação de R$ 335 milhões. O dinheiro, segundo o presidente da Transbrasil, é referente a cobrança indevida de ICMS entre os anos de 1989 e 1994. Assim como outras companhias, a Transbrasil ganhou o processo na Justiça. Só há um problema. O governo federal e os Estados acreditam que as companhias não devam ser as reais beneficiárias de tal ajuda. Há uma forte suposição de que o ICMS tenha sido repassado para o preço dos bilhetes. Em outras palavras, milhares de passageiros teriam direito à restituição que Cipriani foi cobrar em Brasília.
Se não der certo, o presidente da Transbrasil tem um plano B:
pedir a intervenção do governo na companhia. O diretor-geral do Departamento de Aviação Civil (DAC), Venâncio Grossi, disse que isto está fora de cogitação: ?Nenhum recurso público será
injetado e não haverá intervenção?. O combustível da Transbrasil está acabando.