Um cordão de isolamento de governadores fez o presidente Fernando Henrique Cardoso voltar a sorrir, depois de passar semanas apanhando de todos os lados por causa da crise de energia. Na quarta-feira, 13, três governadores aliados trocaram as resistências ao plano de racionamento pelo apoio incondicional. ?Reconhecemos que a situação é complicada e estamos dispostos a contribuir?, disse a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, do PFL, ao deixar o Palácio da Alvorada. Ao lado dela estavam os governadores do Pará, Almir Gabriel (PSDB), e do Tocantins, Siqueira Campos (PPB). Apesar de seus Estados não estarem sofrendo os efeitos da estiagem, eles aceitaram reduzir em 15% o consumo de energia para transferir a economia para o Nordeste.

No dia anterior, o governo havia recebido outra boa notícia. Os governadores dos três Estados da região Sul, entre os quais o petista Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, enviaram seus secretários de Energia a Brasília para levar ao ministro Pedro Parente uma oferta de economia de energia de 7%.

?Estamos dispostos a racionar até 12%?, anunciou a secretária de Energia gaúcha, Dilma Rousseff. As boas novas funcionaram como um bálsamo no humor do presidente, que vinha declinando ao sabor dos ataques dos governadores de Minas Gerais, Itamar Franco, e do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Itamar disse que seu Estado não vai cumprir as regras do corte de energia enquanto houver liminares contra o racionamento. Na mesma toada, Garotinho, que também é pré-candidato à Presidência em 2002, anunciou que vai recorrer à Justiça para recuperar perdas de arrecadação que o Rio venha a sofrer. ?Fazia tempo que não via o presidente tão feliz?, reconheceu o ministro de Minas e Energia, José Jorge, logo após almoçar com Fernando Henrique, depois da reunião com os governadores aliados.

Com a equação política resolvida, o governo volta a ter uma certa tranqüilidade para cuidar das questões práticas. Nenhuma das três regiões ameaçadas de cortes de energia alcançou a meta de 20% de redução no consumo nos dez primeiros dias de junho. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a queda foi de 16% no Sudeste e Centro-Oeste e de 17% no Nordeste. Nos bastidores, assessores do governo não escondem sua preocupação com os resultados do primeiro teste do racionamento. Os riscos de apagões gerais ocorrerem nos próximos cinco meses até o fim da estação seca são altos. Uma das avaliações é que se já no início o plano não engrenou como se esperava, piores poderão ser os resultados nos meses seguintes. A tendência é os consumidores, principalmente os residenciais, relaxarem na economia de energia na medida em que o tempo passa. ?Em agosto e setembro estaremos no pior dos mundos. As pessoas já estarão cansadas de poupar energia e a seca estará no seu auge?, diz um assessor palaciano. A esperança é que a indústria e o comércio, que ainda estão se ajustando às medidas, façam sua parte daqui para frente.

A tarefa não será fácil, já que o plano enfrenta a rejeição de uma parte significativa da população. Prova disso foi a manifestação de 15 mil pessoas que saíram em passeata pelas ruas do Rio na terça-feira para criticar o racionamento. Além disso, os quatro procuradores do Ministério Público Federal que investigam as responsabilidades da crise anunciaram que vão acionar o governo na Justiça por causa da crise energética. ?Há claros indicativos de que o governo sempre foi alertado dos riscos de uma crise de energia?, explicou o procurador Alexandre Camanho, da Procuradoria da República no Distrito Federal. Para completar, os partidos de oposição se uniram numa frente ampla contra o governo e decidiram garantir recursos para novos investimentos no setor elétrico na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2002. A estratégia é obstruir a votação da proposta até que o governo concorde em reduzir a meta de ajuste fiscal de R$ 31 bilhões para R$ 6 bilhões. Os R$ 25 bilhões restantes serão destinados para novos investimentos em energia e para combater os efeitos da seca. ?Em uma circunstância como essa, sempre se abre espaço para os que procuram tirar proveito de uma conjuntura difícil para o País?, disse o presidente Fernando Henrique.

Colaborou Marco Damiani