28/01/2026 - 6:00
Vivemos uma era em que as fronteiras entre a vida pública, a política e o ambiente corporativo se tornaram perigosamente porosas. O fenômeno que observamos hoje no cenário político global, de forma mais aguda no exemplo americano e na figura de Donald Trump, não é mais um evento isolado das urnas; ele se tornou um manual de comportamento que tem tentado sequestrar as salas de reunião e as diretorias.
É importante ressalvar, contudo, que esse não é um fenômeno generalizado. A vasta maioria das posições executivas e dos conselhos de administração ainda é ocupada por lideranças que prezam pela governança e pela estabilidade. No entanto, a ascensão de uma “liderança por espetáculo” tem ganhado um destaque desproporcional, impulsionada pelas redes sociais, e demanda atenção urgente para que o ruído da performance não se torne a nova regra do jogo corporativo.
Essa transposição do radicalismo político para o mundo empresarial manifesta-se, primeiramente, na figura do líder-personagem. É aquele gestor que, mimetizando a estética das redes sociais, busca a polêmica constante para reafirmar sua presença e seu poder. Para esses líderes, a gestão não é um exercício de bastidor, de análise técnica ou de construção coletiva, mas uma performance contínua para uma plateia de seguidores — sejam eles funcionários, investidores ou o público externo.
O problema é que, onde o holofote é o objetivo principal, a visão periférica se perde inevitavelmente. Quando um líder precisa ser o centro das atenções o tempo todo, ele para de ouvir, pois o eco de sua própria voz ocupa todo o espaço da tomada de decisão.
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O reflexo direto dessa centralização é a erosão da divergência. Assim como no campo político atual, onde o “outro” é visto como um inimigo a ser eliminado e não como um interlocutor necessário, algumas culturas corporativas estão começando a mimetizar esse comportamento, transformando-se em câmaras de eco. Líderes que buscam apenas quem confirma seus próprios viéses estão, na prática, construindo castelos de cartas.
A busca incessante pelo alinhamento contínuo — aquela concordância mansa, imediata e sem atritos — é o sintoma mais claro de uma cultura que prefere o conforto da obediência à eficácia do resultado. No mundo dos negócios, o consenso forçado é o pai do erro estratégico. Se todos na sala concordam com o CEO por receio ou por conveniência, há inteligência sendo desperdiçada.
A construção de times saudáveis exige a coragem de conviver com o desconforto. A verdadeira diversidade, que tanto se prega nos relatórios de sustentabilidade, vai muito além das cotas e dos perfis demográficos; ela reside na diversidade cognitiva e na liberdade de discordar sem medo de represálias. O líder que se cerca de uma postura subserviente está apenas alimentando sua própria insegurança disfarçada de autoridade.
Ele confunde lealdade com submissão, ignorando que o colaborador mais leal é justamente aquele que tem a coragem de dizer “não” quando percebe um desastre no horizonte. No entanto, o que vemos em nichos influenciados pelo radicalismo político é o crescimento de um “tribalismo corporativo”, onde o conflito de ideias é confundido com deslealdade pessoal.
Além disso, a necessidade de gerar polêmica para manter a relevância digital cria um ambiente de instabilidade psicológica constante. Quando a estratégia da empresa parece flutuar conforme o último post provocativo do líder nas redes sociais, a segurança institucional se esvai.
O papel fundamental de uma liderança de alto nível é filtrar o ruído externo para que o time possa focar na execução; quando o líder é o próprio gerador de ruído, a organização entra em um estado de ansiedade crônica.
Precisamos resgatar a sobriedade. O momento atual exige lideranças que não precisem ser o sol de seus sistemas solares, mas sim a força que mantém os talentos orbitando um objetivo comum. É preciso resistir ao modelo de liderança messiânica e retomar o valor das instituições, dos processos de pesos e contrapesos e, sobretudo, do respeito ao contraditório.
O futuro da gestão não pertence aos que gritam mais alto para as câmeras, mas aos que têm a grandeza de ouvir o que é necessário para o negócio.
*Heverton Peixoto é CEO do Banco Omni
